A Síndrome de Posner-Schollsman caracteriza-se por episódios intermitentes de
glaucoma agudo acompanhados por leves uveítes anteriores. As crises são unilaterais,
recorrentes e caracterizadas por pupilas discretamente dilatadas, ao contrário, das pupilas
mióticas, mais comumente vistas nas irites. Neste artigo temos o relato de três
casos de pacientes do sexo masculino com síndrome de Posner-Schlossman (SPS), possuindo
dois deles um grau de consanguinidade em primeiro grau. Baseando-se em
sinais e sintomas típicos, e cuidadoso exame oftalmológico, que aqui são discutidos e
analisados, é possível realizar o diagnóstico da crise glaucomatociclítica. A rara ocorrência
da doença em questão justifica a importância de um diagnóstico preciso para seu
tratamento correto a fim de evitar cirurgias desnecessárias ou doenças secundárias por
equívocos diagnósticos.
Descritores: Uveíte/diagnostico; Pressão intraocular; Síndrome; Glaucoma/diagnóstico
Posner-Scholssman Syndrom is characterized by
intermittent acute episodes of glaucoma with mild anterior
uveitis. Usually, the crisis is unilateral, recurrent and
typified by discreet dilation of the pupils as opposed to
constricted pupils, commonly seen in iritis. Herein this
article, we report three cases of male patients with Posner-
Schlossman syndrome, two of them showing a significant
degree of first degree parenthood. Based upon typical
signs and symptoms, and careful eye examination,
thereby discussed and analyzed, it is possible to diagnose
the glaucomatocyclitic crisis. The rare occurrence of the
disease justifies the importance of an accurate diagnosis
for a proper management in order to avoid unnecessary
surgery or secondary diseases by diagnostic mistakes
Keywords: Uveitis/diagnosis; Intraocular pressure;
Syndrome; Glaucoma/diagnosis; Case reports
Em 1948, Posner e Schlossman relataram o primeiro
caso concreto de crise glaucomatociclítica,
descrevendo assim uma síndrome rara e de importante
distinção entre os tipos de glaucoma associados
a uveítes.(1,2)
A maioria dos autores considera a sua etiologia
desconhecida,(1,3-8) entretanto uma série de trabalhos mais
recentes estuda possíveis relações de outros agentes, como
o herpes simplex, o citomegalovírus, e o helicobacter
pylori,(3,9-11) bem como a associação com HLA-Bw54
positivo em 40% dos pacientes com síndrome de Posner-
Schlossman (SPS).(4,6) Contudo, ainda não se pode atribuir
definições absolutas em relação à causa da doença.
Em um dos estudos,(9) pesquisando associação com
o virus Herpes Simplex (HSV), observou-se a presença de
fragmentos de DNA do HSV em amostras de humor aquoso
dos pacientes com SPS, enquanto que no grupo controle
o resultado foi negativo na pesquisa do vírus, sugerindo a
possibilidade de associação do HSV com a síndrome.(3,9)
Relatos recentes indicam que não há associação
de citomegalovírus (CMV) como causa da crise
glaucomatociclítica.(10)
Ainda em investigação de possíveis causas, outro
estudo(11) realizou uma análise sorológica para pesquisa
de Helicobacter Pylori em associação ou não com SPS.(11)
Também houve divisão entre pacientes com SPS e grupo
controle. Foram encontrados, em 80% do grupo com
SPS, os anticorpos anti-IgG, para H. Pylori no soro, enquanto
que no grupo controle a taxa de positividade foi
de 56,2%, estando o H. Pylori relatado como um importante
fator de risco para SPS.(11)
Ainda outros mecanismos têm sido postulados: possíveis
processos vasculares anormais e/ou mecanismos
imunológicos, aumento dos níveis de prostaglandinas, defeitos
anatômicos e condições alérgicas, hipersecreção
aquosa, e reação mediada por IgE.(4,12)
A SPS é mais reconhecida em adultos jovens, do
sexo masculino entre 20 e 50 anos de idade.(1-7) Porém
há relatos de sua ocorrência também em crianças, e mais
raramente em idosos.(1,2)
As crises se caracterizam pela ocorrência de ataques
agudos e recorrentes de uveíte anterior leve, associado
ao aumento da pressão intraocular (PIO) - entre
40 e 60 mm Hg - unilateralmente, quase sempre. Entretanto
em uma porcentagem dos casos há envolvimento
bilateral não-simultâneo.(1-8,12)
Cada crise pode se estender de poucas horas a
várias semanas, mas em geral cessam entre 7 e 14 dias. A
frequência dos ataques varia, com períodos de remissão
que podem durar de um mês a muitos anos, de modo que
com o passar do tempo o intervalo entre as crises tende
a ser maior.(1-5)
Os sintomas mais frequentes são leve desconforto
ocular, diminuição da visão e aparecimento de halos
coloridos em torno de luzes.(1-3,7,8)
À inspeção, observa-se um olho calmo com discreta
hiperemia conjuntival.(1-3,7)
Cabe salientar que a literatura atual também considera
importante o acompanhamento efetivo de pacientes
com síndrome de Posner-Schlossman, pois um
percentual significativo desses poderá desenvolver
glaucoma crônico de ângulo aberto, o que sugere assim,
uma alteração degenerativa da malha trabecular, dificultando
o escoamento do humor aquoso.(1,2,4-6)
Sugere-se que o diagnóstico da crise
glaucomatociclítica deva se dar através de um rigoroso
acompanhamento do caso, sendo identificadas as repetidas
crises de ciclíte, geralmente autolimitadas, somadas
a um quadro clínico característico.(5)
Ao diagnóstico diferencial, deve-se considerar
glaucoma primário de ângulo estreito com bloqueio
pupilar ou outras uveítes hipertensivas, principalmente
a ciclíte heterocrômica de Fuchs, na qual o glaucoma
tende a se desenvolver mais tardiamente, pois o aumento
da PIO se dá pela deposição de células inflamatórias
na malha trabecular e à esclerose desta.(1,5)
O tratamento visa a minimizar os danos causados
pela pressão sobre o nervo óptico, ao longo do tempo, e
reduzir a inflamação.(7,12)
É importante já se destacar que, a longo prazo, os
corticóides poderão causar a elevação da PIO induzindo
riscos adicionais de glaucoma secundário e/ou
opacificação subcortical posterior do cristalino i.e. catarata
secundária.(1,5)
Atualmente existem relatos do uso experimental
de tonômetro portátil (Phosphene), cujo mecanismo possibilita
a automonitorização e controle da PIO pelo paciente
em uso domiciliar, nos períodos de remissão dos
ataques.(13)
Classicamente a cirurgia pode não estar indicada
na SPS; porém, em alguns casos, com recorrência elevada,
poderá se instalar glaucoma crônico simples de ângulo
aberto, levando a necessidade de manutenção
cirurgica.(1,5,7,8)
Os autores consideram importante este relato de
caso por sua raridade e pela importância do diagnóstico
preciso para seu tratamento correto, evitando, deste
modo, terapêutica clínica imprópria e/ou cirurgias desnecessárias.
(1,5)
Descrição dos casos e resultados
Caso 1
F.G.B., 44 anos, sexo masculino, branco, casado,
agrônomo, procedente do interior do Estado do Rio Grande
do Sul.
Em 1998 procurou atendimento oftamológico com relato
de várias crises de “uveíte hipertensiva” em olho
direito (OD), há 28 anos, com “pesquisas clínicas e
laboratoriais negativas para classificação da uveíte, e
acompanhamento oftalmológico prévio”. Relatou ainda
glaucoma em avô e tio (sic). Nega trauma ocular e
infecção em atividade. Referiu tosse seca após início do
uso de colírios.
Estava em uso diário de acetazolamida 250mg,
por via oral (VO), latanoprost 50mcg 1x/dia, maleato de
timolol 0,5% 1x/dia, e acetato de prednisolona a 1% de
4/4 horas, tópicos.
Ao exame ocular apresentou edema de córnea,
íris heterocrômica , leve midríase, flare raro e precipitados
retroceráticos (PK) no terço inferior da córnea, com
opacificação cristaliniana subcortical posterior inicial
em OD, e fundoscopia normal (Figura 1). O olho esquerdo
(OE) não apresentava alterações dignas de nota.
O exame refracional demonstrava astigmatismo
misto em OD e emetropia em olho esquerdo (OE), atingindo
20/20.
A PIO do OD era de 16 mm Hg e a PIO do OE 12
mm Hg (10:30 h), por tonometria de aplanação de
Goldmann. A gonioscopia apresentava ângulo aberto
em 360°.
Com estes dados, foi realizado o diagnóstico de SPS
e instituído o tratamento, com a manutenção de latanoprost
50 mcg, às 21 horas, cloridrato de dorzolamida tópico de
12/12 horas, e cetorolaco de trometamina, 0,4% 5x/dia, e
tropicamida 1% 3x/dia.(1,4-8,12) Após dez dias, em revisão,
o OD apresentava ausência de flare, PK e PIO de 10 mm
Hg, tendo sido então sugerida a suspensão do tratamento,
com controle ambulatorial subsequente.
Quatro meses depois, o paciente recorre com queixas
de OD dolorido e hiperemiado há dois dias. Apresentava
PIO em OD de 28 mm Hg (14:00 h), PK finos, e
flare ++++/4+. OE sem alterações. Foi reinstituído o
mesmo tratamento da crise anterior, com revisões semanais.
Na primeira semana de acompanhamento, a PIO
em OD se estabeleceu em 10 mm Hg (14:00 h), os aspectos
inflamatórios desaparecem, mas com PK finos
ainda presentes. Optou-se pela redução gradual da medicação,
mas com a suspensão do inibidor da anidrase
carbônica. Na semana seguinte os padrões oculares se
mantiveram em ambos os olhos (AO), porém com redução
nos PK para +/4+. Destituiu-se o tratamento.
O paciente permaneceu por um ano e meio sem
crises, quando em 2000 tornou a apresentar nova crise.
O tratamento instituído foi idêntico ao da primeira crise,
somando-se o uso de acetazolamida, 500mg/dia,
VO.(1,4-8,12) A evolução foi favorável, sendo retirados, gradualmente,
os medicamentos.
Após isso, passou a apresentar 2 a 3 episódios por
ano de crise glaucomatociclítica em OD. Comparecia às
consultas durante as crises, com queixas de hiperemia
ocular, visão embaçada, halo nas luzes, desconforto ocular
(sic). Chegou a apresentar, em algumas crises, níveis
pressóricos de 44 mm Hg em OD, enquanto no OE, manteve-
se assintomático e com PIO média de 10 mm Hg.
Quando instalada a crise, o tratamento com AINE,
cicloplégico leve e hipotensor ocular demonstrou sempre
ser efetivo.
Foram realizados exames de campo visual
computadorizado que se mantiveram normais no decorrer
da evolução do paciente.
Em abril de 2007, o paciente procurou atendimento
com OE normal, apresentando PIO de 10 mm Hg (11:00 h)
e acuidade visual (AV) de 20/20, enquanto OD apresentava
hiperemia bulbar +++/4+, Fundus Ocular impossível,
PK +++/4+, edema de córnea +++/4+, PIO de 43 mm Hg
(11:00 h) e AV de 20/200. Na ocasião, foi instituído novamente
o tratamento com latanoprost 50 mcg, às 21 horas,
cloridrato de dorzolamida tópico de 12/12 horas, e cetorolaco
de trometamina, 0,4% 5x/dia(1,4-8,12) e tropicamida 0,1% 3x/
dia, porém sem remissão de sintomas.
Sugeriu-se a infiltração subconjuntival de
corticóide, mas após acompanhamento seriado por duas
semanas, não se observou baixa da PIO no OD, aquém
da média de 38 mm Hg.
Foi sugerida cirurgia filtrante, considerando-se a
evolução de todas as crises, objetivando a manutenção
da visão do paciente.
O procedimento de eleição foi a trabeculectomia,
sendo administrado o seguinte tratamento no pós-operatório:
cloridrato de moxifloxacino 0,5% 5x/dia,
cicloplégico colírio 3x/dia e acetato de prednisolona
1,0% 4x/dia.(14)
Na primeira semana após a cirurgia, o OD apresentou-
se com câmara anterior preservada, sem sinais
inflamatórios, edema de córnea discreto e PIO de 16
mm Hg (10:30 h). O antiinflamatório esteróide foi então
substituído por AINE tópico (diclofenaco sódico 0,1%,
3x/dia), embora haja a sugestão para a manutenção desse
medicamento por tempo mais prolongado.
Manteve-se acompanhamento sequencial semanal,
e o pós-operatório de 30 dias apresentou olho sem
sinais inflamatórios, edema de córnea no terço inferior
leve e AV corrigida para 20/25. A conduta sugerida manteve
o AINE colírio, sendo gradualmente retirado.
Em novembro de 2007, o paciente retornou à consulta
com queixa de “névoa” em OD. Ao exame apresentava
discreta irite, PIO do OD de 12 mm Hg (10:00
h) e PIO do OE de 10 mm Hg (10:00 h). Foi prescrito
novamente o mesmo AINE em doses decrescentes.
Em sua última consulta, em fevereiro de 2008,
apresentou ambos os olhos dentro da normalidade, com
PIO OD de 13 mm Hg e PIO OE de 11mm Hg, sem uso
de medicação.
Caso 2
A.D.B., 22 anos, sexo masculino, branco, solteiro,
estudante, procedente de Santo Ângelo-RS.
No início de 2007, paciente procurou atendimento
para saber se possuía o mesmo diagnóstico que o seu
pai (Caso 1). Estava acompanhando com oftalmologista
de sua cidade. Referiu seis crises de aumento da PIO em
olho esquerdo (sic), com a última medida de 42 mmHg
em OE, com OD normal na ocasião da consulta anterior
(sic). Usou na última crise, que se encerrou há alguns
dias da data desta consulta, dexametasona 0,1% tópico,
atropina tópica 0,5% 3x/dia, maleato de timolol 0,25%
tópico, 2x/dia, sob indicação do médico de origem.
Possui história familiar de síndrome de Posner-
Schlossman confirmada em genitor do sexo masculino
(Caso 1).
Ao exame inicial, apresentou ambos os olhos sem
sinais inflamatórios, e segmento anterior normal, à exceção
de anisocoria discreta, com midríase média
reagente em OE, e OD sem alterações.
À fundoscopia, foi observada escavação papilar
grau I/IV em OD e grau II/IV em OE. Não apresentava
ametropias dignas de nota.
No exame de biomicroscopia não apresentou alterações
da normalidade. Apresentava-se com PIO de
OD 14 mm Hg e PIO de OE de 20 mmHg (15:00 h), por
tonometria de aplanação de Goldmann e gonioscopia
normal.
Considerando como hipótese plausível a SPS, paciente
recebeu colírio de maleato de timolol 0,5%, 2x/
dia por um mês, e suspensão do colírio de corticoesteróide.
Um mês depois, retornou ao exame apresentando PIO
de OD de 14 mm Hg e PIO de OE de 12 mm Hg. Realizou-
se campo visual computadorizado na ocasião, em
AO, não apresentando alterações campimétricas significativas.
Sugeriu-se reencaminhamento ao seu oftalmologista original,
com sugestão diagnóstica de SPS em OE,
e com orientação para abstenção do uso de
corticoesteróide tópico crônico, para se evitarem complicações
decorrentes de seu uso a longo prazo.
Caso 3
P.R., 43, masculino, branco, casado, comerciante,
procedente de Ibirubá - RS.
Em 2001, paciente procurou atendimento na
C.O.S.L de Cruz Alta - RS relatando “glaucoma em OD,
há 10 anos”, tendo passado por várias avaliações
oftalmológicas anteriores (sic), com crises intermitentes
de dor e perda de visão(sic), e “enxergando arcos de
luz”.
Informou o uso de colírios de acetato de
fluormetolona 0,001g, acetato de prednisolona 1,2mg/
ml, pilocarpina, maleato de timolol e cloridrato de
dorzolamida associados, 2x/dia. Na primeira consulta
estava em uso de AINE tópico, 3x/dia.
Ao exame, hiperemia bulbar em OD e anisocoria
com leve midríase à direita. Ao exame de fundo de olho,
encontrou-se escavação de papila grau II/IV em OD,
com OE preservado.
A biomicroscopia revelava flare escasso, e PK no
terço inferior da córnea com opacificação cristaliniana
subcortical posterior central em OD. Gonioscopia sem
alterações.
A AV aferida foi 20/80 e J6 em OD.O olho esquerdo,
emétrope.
A PIO do OD era de 36 mm Hg e 10 mm Hg a
PIO do OE (11:30h), à tonometria de aplanação de
Goldmann.
Baseando-se nesses achados, cogitou-se possível
SPS e se iniciou o tratamento tópico com tropicamida
1 %, tartarato de brimonidina 0,15%, maleato de timolol
e cloridrato de dorzolamida em associação 2x/dia.
Uma semana depois, em nova reavaliação, apresentou
AV de 20/30 em OD. Persistia o flare mínimo e
PIO do OD era de 12 mm Hg (11:00 hrs). Foi acrescentado
colírio de cetorolaco de trometamina 0,5%, 2x/dia,
mantendo-se os demais colírios por quatro semanas restantes.
Um mês depois, sua AV sem correção no OD foi
de 20/25 e J3. PIO do OD 8 mm Hg, com ausência de
flare. Recebeu alta, com manutenção do colírio de
tropicamida 1%, 1x/dia, por um mês.
Cinco meses depois, paciente retornou com queixa
de dor e “sensação de pressão no olho”, há dois dias. A
AV sem correção: OD 20/40 e J5 / OE 20/25 e J1. A PIO
média do OD foi de 26 mm Hg e PIO do OE 10 mm Hg.
Apresentava um flare importante, +++/4. Novamente,
foi instituído cetorolaco de trometamina 0,5%, 2x/dia,
tropicamida 1%, 3x/dia, e maleato de timolol associado
a cloridrato de dorzolamida, 2x/dia. Uma semana depois,
à biomicroscopia, apresentava flare raro, PIO de OD
12 mm Hg. Manteve-se a tropicamida 1% 3x/dia,
por mais duas semanas, acrescido de AINE colírio 3x/
dia por uma semana.
Em nova revisão, não apresentava alterações oculares,
com PIO média de 8 mm Hg em ambos os olhos.
Após três meses, retornou à consulta com queixas
de dor “em pressão” em OD, há cerca de 24 horas. Sua
AV era de 20/40 e J3 em OD. À biomicroscopia, flare
importante novamente, com PIO de OD de 38 mm Hg e
PIO de OE 10 mm Hg (14:00 h). Diante de outra crise,
optou-se por AINE colírio (flurbiprofeno 0,03%) 5x/dia,
tropicamida 1% 3x/dia, maleato de timolol associado a
cloridrato de dorzolamida, 2x/dia, e tartarato de
brimonidina 0,15%, 2x/dia.
Dez dias depois, o paciente se mostrava
assintomático, sendo então, destituído o tratamento.
Mais uma vez, após dez meses apresentou novo
episódio similar aos anteriores: com PK e flare brando
em OD. PIO de OD 36 mm Hg e PIO de OE 12 mm Hg.
Repetiu-se a terapia da última crise, por uma semana.
Na revisão, após uma semana, estava com PIO de
OD ainda elevada (22 mmHg). Seguiu-se, então, com
acompanhamento semanal, e com o tratamento mantido.
Houve, entretanto, um aumento da PIO em OD para
30 mm Hg, em uma semana após a consulta anterior. A
partir disso, foi associado o uso de colírio de
prostaglandina (travaprosta 0,004%) 1x à noite. Após
uma semana, o paciente apresentou PIO do OD de 10
mm Hg, o olho calmo, e assintomático.
Passados dois meses, apresentou novo episódio
com remissão do quadro em uma semana, em resposta à
última terapêutica proposta.
Manteve-se estável, ao passar de um ano
assintomático e sem novas recorrências de SPS.
Em outubro de 2004, teve novo episódio da SPS,
com PIO de OD chegando à média de 38 mm Hg, e 12
mm Hg no OE. Teve remissão dos sintomas em duas
semanas de tratamento. Permaneceu, então até o ano de
2007, assintomático.
A última crise glaucomatociclítica ocorreu em
outubro de 2007 com o quadro sintomático idêntico ao
da primeira consulta. PIO do OD de 30 mm Hg e 8 mm
Hg em OE. Usou colírios de brimonidina e maleato de
timolol, cetorolaco de trometamina 0,5% e tropicamida
1%, por uma semana, reapresentando olho “calmo” e
PIO de OD 10 mm Hg.
Mantém-se desde outubro de 2007 estável, sem
recorrência dos sintomas.
Os casos relatados são uma combinação de sinais
e sintomas típicos da síndrome de Posner-Schlossman,
que se caracteriza por manifestações glaucomatosas e
ciclíticas específicas.(18,12,15) De todos os pacientes com
diagnóstico de uveíte, 1.19 por cento apresentam esta
síndrome.(1) Quando se classifica glaucoma secundário
à uveítes, a síndrome de Posner-Schlossman é responsável
por apenas 0,9 % dos casos.(16)
Caracterizada por acometimento unilateral, na
maioria dos casos,(1,3-6) e tipicamente em adultos masculinos
na faixa etária de 20 a 50 anos ,(1-7) a doença evolui
com episódios recorrentes de freqüência variada, como
podemos ver aqui.(1-6)
Na crise, um desconforto ocular leve é o sintoma
mais frequente, seguido de discreta diminuição da AV e
aparecimento de halos coloridos.(1-3) Nos casos expostos
acima, encontramos tanto estes sintomas, como também
os sinais de ciclíte revelados na biomicroscopia e o aumento
significativo da PIO, chegando à máxima média
de 44 mm Hg no paciente do Caso 1, no período dos
ataques.
Ainda, à biomicroscopia, observou-se midríase do
olho afetado nos três casos relatados. Esse achado contraria
a presença de miose que normalmente pode se
fazer presente durante crises de irite, e não se formam
sinéquias anteriores ou posteriores.(1-5,7)
Além disso, encontramos PK concentrados no terço
inferior da córnea, íris heterocrômica, flare, edema
de córnea e hiperemia bulbar, os quais são típicos da
doença relatada.(1-7,15) É importante destacar a ausência
de sinéquias.(1-6) A gonioscopia mostrou o seio camerular
aberto nos quatro quadrantes, em todos os casos.(1,4,5)
A PIO do olho contralateral manteve-se sempre
dentro da normalidade, independente das crises. A PIO
do olho afetado, fora dos períodos de crise
glaucomatociclítica, apresentou-se também dentro de
valores fisiológicos.
Os tratamentos instituídos se mostraram eficazes
com uso de corticóide tópico e/ou AINE durante as crises
para conter o processo inflamatório,(1,4-8) associados
a hipotensores oculares e cicloplégico, conforme demonstra
a literatura.(6,8)
Porém, com a recorrência dos ataques o tratamento
farmacológico mostrou-se ineficiente ao longo
dos anos no paciente do Caso 1, instalando-se diminuição
da AV, edema epitelial importante (+++/4+) e fundus
ocular impossível. Esse quadro levou a realização da
cirurgia filtrante, como sugere a bibliografia.(1,4,8)
Como diagnóstico diferencial devemos considerar
o glaucoma agudo primário e de uma forma mais
complexa, outras formas de uveíte associadas a
glaucoma, principalmente a Ciclite Heterocrômica de
Fuchs.
Aqui é importante mencionar que na síndrome
de Posner-Schlossman a hipertensão intra-ocular ocorre
em média de 1 a 2 dias antes da uveíte, podendo acontecer
sem esta.(1) No glaucoma secundário à uveíte, como
a nomeação sugere, o glaucoma é uma complicação da uveíte
instalada e a clínica, então, difere: identifica-se a
presença de sinéquias, miose e pupila irregular. A câmara
anterior apresenta sinais inflamatórios caracteristicamente
importantes e os PK variam em maior número
na maioria dos casos, podendo ser pigmentados.(1,15)
Os casos relatados trazem todas as características
da síndrome de Posner-Schlossman, contudo cabe
salientar que, no Caso 2, não ocorreu um pico
hipertensivo intraocular marcadamente expressivo como
nos demais, pois o paciente já se mantinha em tratamento
no momento da consulta.
No Caso 3, observa-se uma freqüência aparentemente
maior de recidivas e também uma duração em
seus episódios, em média, superior aos outros e à descrita
na literatura, a qual sugere que cada crise cesse entre
7 e 14 dias.(1-5) Ainda se observou diminuição na freqüência
das crises com o passar do tempo, com maiores
períodos de remissão, concordando com a literatura.(1-5)
Cabe por último salientar que embora existam
algumas considerações quanto ao uso de análogos de
prostaglandinas em glaucoma inflamatório, lançamos
mão dessa classe de droga para auxiliar a manutenção
da PIO elevada e de difícil controle, uma vez que não há
contra-indicação absoluta ao seu uso, e nos casos descritos
obteve-se êxito com seu uso, considerando que é de
suma importância atingir e manter a PIO em valores
normais. Na tabela 1 é possível observar as diferenças
entre os três casos.
Os pacientes descritos apresentaram quadros clínicos
bem característicos de síndrome de Posner-
Schlossman, permitindo sua exemplificação fidedigna.
Os pacientes dos Casos 1 e 2 possuem laços de
consangüinidade de primeiro grau. Ainda assim, o genitor
paterno (Caso 1) referiu antecedentes de glaucoma em
tio e avô o que, sugere a possibilidade de uma SPS não
diagnosticada no passado. A presença de SPS em seu
filho (Caso 2) também nos sugere a possibilidade de
linearidade genética.
A SPS parece ser inicialmente autolimitada, porém,
com o tempo, pode resultar em glaucoma crônico
de ângulo aberto e em conseqüente perda permanente
da AV. Portanto, a importância do diagnóstico correto
reflete no estabelecimento do tratamento efetivo.
Contudo o fato de ser uma patologia rara,
autolimitada e de etiologia incerta, dificulta a elaboração
de um estudo de acompanhamento dos efeitos das
drogas na doença.(17)
Assim nos vale o cuidado imperativo com o uso
de glicocorticóides tópicos na síndrome, sendo eles responsáveis
por possíveis iatrogenias, como as descritas
anteriormente-glaucoma e catarata.
Os pacientes com diganóstico de SPS podem ser
tratados com colírios hipotensores, somados a um
cicloplégico leve e AINE no período das crises. Embora
seja difícil estabelecer um padrão terapêutico devido à
raridade da doença, esses esquemas acima retratados
são suficientes, como podemos ver. Guarda-se o procedimento
cirúrgico para casos seletos e refratários ao tratamento
proposto.
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