O sentido da visão é responsável por cerca de oitenta e cinco por cento da integração do ser
humano com o meio que o rodeia. Isso é perfeitamente compreendido quando fechamos os
olhos por um breve intervalo de tempo de apenas cinco segundos, e percebemos como tudo fica
diferente.
Os órgãos maiores da visão - os olhos - são estruturalmente pequenos em dimensão e frágeis na
consistência, porém extremamente importantes na função, além de serem riquíssimos na expressão.
Os olhos são as janelas da alma; ao brilhar na alegria ou lacrimejar no choro, a tradução do sentimento
e das sensações, enfim, os nossos guias tanto nos momentos de satisfação quanto nas desilusões!
Esse dom divino, assim como as outras partes do corpo humano, também envelhece, sofre desgastes,
pode sediar doenças e ser alvo de processos degenerativos.
Se considerarmos as linhas de cortes epistemológicos relacionadas com a envelhescência ocular que
se estabelecem no decorrer da vida, podemos registrar três momentos como os mais significativos: o primeiro
é o que acontece por volta da quarta década, em que já não é mais possível ler sem o auxílio de
óculos. É a presbiopia, definida como a dificuldade de visão para perto causada pela perda da acomodação
- capacidade de enfocar objetos e diferentes distâncias.
Também nesse momento, aproximadamente 2% da população de todas as raças começa a desenvolver
uma doença ocular denominada glaucoma - oftalmopatia que, se não controlada, lesa gradualmente o
nervo óptico, podendo causar cegueira. Essa entidade tem na elevação dos níveis suportáveis de pressão
intraocular o seu principal fator de risco.
Ainda a partir dos quarenta anos, enfermidades como a hipertensão arterial e a diabetes, se não
compensadas, podem cursar com manifestações oculares na região do fundo do olho, a urgirem pela aplicação
de tratamento a base de raios laser para evitar o comprometimento severo da visão.
O segundo momento ocorre na quinta década quando, somados aos antes descritos, podem se instalar
dois outros males de considerável relevância (detectados mais frequentemente no sexo feminino, de
provável correlação com distúrbios hormonais), que são: o Olho Seco, causado pela diminuição e/ou desorganização
do filme lacrimal, o que requer a utilização permanente de colírios de lágrima artificial; e as
deformidades da pálpebra, causadas pela deposição de excesso de gorduras, que produzem as bolsas
palpebrais e os xantelasmas, situações resolvíveis com procedimentos cirúrgicos de pequeno porte.
O terceiro momento ocorre a partir dos sessenta anos, quando as primeiras estruturas oculares que
se formam na vida embrionária evidenciam que também são as primeiras que desenvolvem senescência. É
quando advêm as doenças do cristalino, da retina e dos nervos cranianos relacionados com o aparelho
visual. Com a perda da transparência da lente natural do olho, instala-se a catarata, que leva à baixa da
acuidade visual, sendo tal situação quase sempre reversível com a aspiração do cristalino envelhecido e sua
respectiva substituição por uma lente intraocultar artificial.
Também, a partir dessa faixa de idade, pode ocorrer comprometimento da retina, em especial, a
mácula, quando pode instalar-se a doença conhecida como Degeneração Macular Relacionada com a
Idade (DMRI) que leva, na maioria das vezes, à perda significativa da eficiência visual. Entretanto, os
avanços no melhor conhecimento das drogas que atuam, impedindo o crescimento vascular e a sua respectiva
aplicação diretamente no interior do olho, despontam como direção alvissareira para o controle dessa
enigmática doença.
Ainda no transcorrer da idade avançada podem advir distúrbios neurológicos, denunciados por
meio de alteração dos movimentos oculares, tanto na horizontalidade quanto no sentido vertical, como,
por exemplo, a perda da capacidade de girar os olhos na direção para cima, que pode vir a representar um
alerta sobre o possível futuro estabelecimento de doença como o Mal de Parkinson.
O conhecimento dessas noções, por parte da população em geral, deve ser entendido como princípio
de educação em saúde, na busca por viver mais e com qualidade, assim como a atenção da comunidade
oftalmológica em voltar-se, cada vez mais, para a gerontologia é deveras importante, considerando-se ser
a população de idosos centenários uma realidade crescente em todo mundo no século XXI.
Cláudio Chaves
Instituto de Oftalmologia de Manaus e Universidade Federal do Amazonas
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