Descreve-se uma paciente com fratura orbitária grave causada por queda de cavalo.
Relato do seu tratamento cirúrgico com correção do estrabismo e tentativa de correção
da enoftamia.
Descritores: Fraturas orbitárias; Enoftalmia/cirurgia; Transtornos da motilidade ocular; Estrabismo/cirurgia; Diplopia; Relatos de casos
Description of a patient with orbital fracture cause by a
horse fall. Follow-up the surgical treatment of the
strabismus and the enophtlamos.
Keywords: Orbital fractures; Enophthalmos/surgery; Ocular motility disorders; Strabismus/surgery; Diplopia; Case reports
Os traumatismos de face são frequentemente
acompanhados de fratura de órbita(1-5).
Esse tipo de fratura é chamada de verdadeira
quando não afeta o rebordo orbitário, como por exemplo,
na fratura tipo “blow out”, em que a porção posteromedial
é a mais acometida por sua fragilidade. A lâmina
papirácea do osso etmóide constitui outro local frágil
onde frequentemente ocorre fratura(1,6).
Várias teorias foram aventadas para a explicação
do mecanismo de fratura, como transmissão de energia
do bulbo ocular para a parede óssea e transmissão
intraóssea, mas nenhuma isoladamente explica de maneira
satisfatória todos os casos(3). A estética e a diplopia
são aspectos perturbadores para os pacientes vítimas de
fratura de órbita(1-2,4-6).
Neste relato, descreve-se um caso grave de fratura
de órbita decorrente de traumatismo por queda do
cavalo com seqüela de enoftalmia e diplopia, e o tratamento
proposto.
Relato de caso:
Paciente do sexo feminino, 24 anos, solteira, procurou
atendimento no Hospital Municipal da Piedade
após traumatismo facial decorrente de queda de cavalo.
Tendo sido avaliada pelo setor de Neurologia, foi encaminhada
após trinta dias para o Setor de Órbita do Serviço
de Oftalmologia.
Apresentava posição viciosa da cabeça, com inclinação
para direita, enoftalmia, hiposfagma subtotal e
midríase média de olho direito.
A acuidade visual sem correção era de 1,0 em
ambos os olhos.
O reflexo fotomotor direto apresentava-se diminuído
no olho direito, enquanto o reflexo fotomotor
consensual apresentava-se normal.
A motilidade extrínseca estava diminuída na
supraversão do olho direito, havendo diplopia bilateral
quando o paciente dirigia o olhar superiormente e lateralmente
à direita. No teste de cobertura, foi observada
hipertropia esquerda.
À biomicroscopia, observava-se hiposfagma
subtotal e midríase no olho direito. A tonometria de
aplanação indicava 12 mmHg no olho direito e 14 no
esquerdo.
O teste de dução forçada apresentava moderada
restrição à elevação.
A oftalmoscopia binocular indireta não demonstrava
alteração em nenhum dos olhos.
O teste da pilocarpina a 0,5% foi positivo, indicando
provável lesão das fibras parassimpáticas do III
nervo ao nível do oblíquo inferior. A tomografia
computadorizada em cortes axial e coronal(7) apresentava
fratura na parede medial, na lâmina papirácea, na
parede lateral e no assoalho orbitário direito (figura 1).
A campimetria visual manual não mostrava alterações.
A exoftalmometria de Hertel era 16,5 mm para o
olho direito e 20 mm para o esquerdo.
Levando-se em consideração o reflexo corneal,
havia um desnível de aproximadamente 2 mm entre os
olhos(8).
Desse modo, foi indicada e realizada a
osteossíntese do rebordo orbitário inferior com fio de
aço e redução da hérnia na fratura "blow-out" com implante
de polietileno poroso tipo "b sheet". Durante a
cirurgia, foi necessária a colocação de duplo implante:
polietileno poroso (1 mm de espessura) e silicone em
folha (1 mm de espessura), pois o desnível entre os olhos
era de aproximadamente de 2 mm(1-2,4-6).
Nas consultas pós-operatórias foi observado alinhamento
dos reflexos corneais e desaparecimento da
posição viciosa de cabeça, além da enoftalmia (figura 2).
A diplopia persistia, apesar de ter sido relatada
melhora subjetiva pela paciente. Optou-se por tratamento
cirúrgico do estrabismo. Contudo não houve aceitação
do tratamento proposto pela paciente.
Cinco meses após a cirurgia, a paciente relatou
piora subjetiva da diplopia. Sete meses após a cirurgia,
notou-se hipertropia esquerda. Foi constatada paresia
do músculo oblíquo superior esquerdo com hiperfunção
do oblíquo inferior esquerdo. O teste de Bielschowsky
foi positivo para a esquerda (figura 3). A correção
estrabológica constou de debilitamento do músculo oblíquo
inferior esquerdo (contralateral à fratura), que resultou
em recuperação total e a paciente passou a apresentar
visão binocular normal(9).
Em relação à fratura de órbita, foi possível realizar
a osteossíntese e correção do afundamento ósseo do
assoalho da órbita, além do desencarceramento do reto
inferior. Houve melhora significativa da diplopia e
consequentemente da posição da cabeça, entretanto, ainda
insuficiente para uma perfeita visão binocular. Esta
somente foi obtida após debilitamento cirúrgico do músculo
oblíquo inferior contralateral ao da fratura(1-2,6,10).
A hipótese de paresia IV nervo intracraniano deve
ser considerada para este caso. O IV nervo emerge na
face posterior da ponte, contornando-a no véu medular
anterior para se dirigir ao outro lado, onde vai inervar o
oblíquo superior contralateral. No véu medular, cruza
com o IV nervo oposto, que segue trajeto inverso. O
traumatismo craniano fechado, ao mover as estruturas
internas do crânio, pode provocar lesão do IV nervo, neste
local de cruzamento, que pode ser uni ou bilateral. No
caso em pauta, teria sido afetado o IV nervo ipsolateral
à fratura orbitária, o IV nervo direito, com paresia do
oblíquo superior esquerdo. Deve-se observar que a
paresia do oblíquo foi no lado contrário ao da fratura
orbitária, o que poderia gerar dúvida etiológica em um
exame mais apressado(9).
Em relação à enoftalmia, houve pequena melhora,
pois a correção cirúrgica somente foi realizada quarenta
dias após o traumatismo, porque a avaliação neurológica
retardou a oftalmológica. Em traumas que afetem
a região ocular, é importantíssima a participação
conjunta do oftalmologista desde a primeira avaliação
com o neurologista. Sabe-se que fraturas com mais de 2
a 3 semanas determinam uma fibrose retrobulbar difícil
de ser corrigida sem iatrogenia(6). Nesta paciente, o
“foward traction test”(8), realizado no ato operatório, foi
negativo, comprovando essa assertiva. Para melhora do
aspecto estético devido à enoftalmia, que muito incomodava
a paciente, foi proposto um enxerto autógeno de
gordura no sulco palpebral inferior(4).
É primordial uma avaliação multidisciplinar adequada
e indicação precoce da correção cirúrgica(6) no
intuito de melhorar a qualidade de vida do paciente,
com preservação da visão e da estética, reintegrando-o
à sociedade. Neste caso em particular, apesar do grande
esforço da equipe médica para atingir visão binocular e
o melhor aspecto estético possível, a correção da
enoftalmia não foi totalmente alcançada, sendo uma
queixa tardia da paciente.
| 1. |
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| 2. |
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| 4. |
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| 5. |
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| 6. |
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| 7. |
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