The T.gondii, etiologic agent of toxoplasmosis, is
an obligate intracellular protozoan, with
worldwide distribution. This parasite has shown a
wide geographic distribution and behaves as a high infectivity
and low pathogenicity agent, as observed that
half of the population is infected and only a reduced proportion
of it presents the disease (Holland, 1999a). In
Brazil, 50 to 83% of the adult population is soropositive
for T.gondii (Oréfice; Bahia-Oliveira, 2005).
The most common presentation form of post-birth
systemic toxoplasmosis (PNST) an asymptomatic one that
happens in 80-90% of all cases (Akstein; Wilson; Teutsch,
1982; Mansur; Jones; Lempert, 1978; Stagno; Dykes; Amos,
1980). The ocular compromise of this infection may occur
during the acute phase or several years after the systemic
disease, and in latency interval is quite variable. This characteristic
makes the diagnosis of post-birth ocular toxoplasmosis
(PNOT) difficult, as long as the cases with ocular
compromising at the inactive stage of the disease can be
misunderstood with late manifestation of congenital infection
(Akstein; Wilson; Teutsch, 1982; Couvreur; Thulliez,
1996; Mansur; Jones; Lempert, 1978; Melamed, 1994).
Although two and five cases of PNOT reported
of by Hogan (1958) and Hogan e Kimura (1964) respectively,
Perkins (1973) considered that ocular involvement
of post-birth systemic toxoplasmosis (PNST)
occurs in 2-3% of cases and that in United Kingdom,
almost all cases of ocular toxoplasmosis had a congenital
origin. Besides that, the complications of systemic
toxoplasmosis are more frequent when central nervous
system is involved. These conceptions prevailed for long
years. Nevertheless, Glasner, Silveira and Kruszon-
Moran (1992), Gilbert and Standford (2000) emphasized
the relevance of post-birth systemic toxoplasmosis
(PNST). Besides that, the high prevalence of postbirth
infection showed in southern Brazil suggests that
the post-birth infection may be a common form of transmission
of the disease (Glasner; Silveira; Kruszon-
Moran, 1992). Another study made in the same region
proved that 8.3% of the individuals with post-birth infection,
who have not developed retinochoroiditis, presented
scar passed a period of 7 years (Silveira et al.,
2001). Gilbert and Standfort (2000) reported that two
thirds of the cases of ocular toxoplasmosis in the United
Kingdom are from post-birth origin.
The PNST may cause serious consequences to
immunosupressed individuals, fetus of pregnant women
carrying negative serology of the disease and may cause
irreversible damage to the vision, mainly when the optic
nerve and macula are involved (Lieb et al., 2004).
The diagnosis of the systemic post-birth disease
and the recognition of the origin of infection are essential
to understand the basic mechanisms of the disease, principally
for protection of high risk patients, to prevention
planning programs and to guidance about therapeutic
consequences (Bosch-Driessen; Rothova, 1999).
The specific treatment of PNOT consists in the
use of pirimetamin, sulfadiazin and folinic acid. Whenever
an intense inflammation occurs, the use of systemic
corticosteroids is indicated. Thus, the precise diagnosis of
PNST is quite important, once it is known that the use of
steroids during parasythemia (with no specific drugs for
toxoplasmosis) may cause severe destruction of the retina
and uncontrolled dissemination of the infection (Ronday
et al. 1995).
Outbreaks of PNST have been described in several
countries (Burnett et al. 1998, Mansur; Jones;
Lempert, 1978; Moura et al., 2006). In fact, speaking of
epidemiology, the PNST has assumed an important role
all over the world. It reasserts not only about the importance
of diagnosis in the patient infected with the systemic
disease, but also about the need of investigation
of the origin f acute disease: how many persons were
contaminated, when it happened and what were its complications.
Luft and Remington (1984) proved that the
acute toxoplasmic infection in family members of patients
with lymphadenopathy caused by T.gondii is common.
They also showed that toxoplasmosis can be found
in groups or persons infected from the same origin
(Akstein; Wilson; Teutsch, 1982; Gonçalves et al., 1995;
Teutsch et al.,1979). Additionally, the presence of ocular
toxoplasmosis has been verified in more than one
brother / sister in the same family (Pinheiro; Oréfice,
1990; Silveira et al., 1988).
Recent studies have been discussing the true
role of the post-birth systemic infection in ocular disease.
Some authors (Bahia-Oliveira et al., 2003; Bowie
et al., 1997; Burnett et al., 1998; Ross et al., 2001;
Silveira et al., 2001) have suggested that the post-birth
systemic infection might be an important cause of ocular
toxoplasmosis.
Oréfice et al. (2009) evaluated cases with clinical,
serologic and epidemiologic evidences of post-birth ocular
toxoplasmosis and episodes of ocular affection as the
only manifestation of the systemic infection where there
were no other clinical evidences of PNST. Researches
about this subject with such a large sample are rare in the
world literature, once this is a difficult diagnosis disease
and with cases of conflicting diagnosis (tables 1,2).

O T.gondii, agente etiológico da toxoplasmose, é
um protozoário intracelular obrigatório, de distribuição
mundial. O parasito tem ampla distribuição
geográfica e comporta-se como agente de alta
infecciosidade e baixa patogenicidade, visto que 50,0%
ou mais da população estão contaminados pelo T.gondii
e apenas uma proporção reduzida apresenta a doença
(Holland, 1999). No Brasil 50,0 a 83,0% da população
adulta é soropositivo (Oréfice; Bahia-Oliveira, 2005).
A forma de apresentação mais comum da
toxoplasmose sistêmica pós-natal (TSPN) é a forma
assintomática que acomete 80-90% dos casos (Akstein;
Wilson; Teutsch, 1982; Mansur; Jones; Lempert, 1978;
Stagno; Dykes; Amos, 1980). O comprometimento ocular
nessa infecção pode ocorrer durante a fase aguda ou
muitos anos após a doença sistêmica, sendo o intervalo
de latência muito variável. Isso torna difícil o diagnóstico
da toxoplasmose ocular pós-natal (TOPN), já que os
casos com comprometimento ocular na fase inativa da
doença podem ser confundidos com infecção congênita
de aparecimento tardio (Akstein; Wilson; Teutsch, 1982;
Couvreur; Thulliez, 1996; Mansur; Jones; Lempert, 1978;
Melamed, 1994).
Apesar do relato de dois em cinco casos de TOPN
descritos por Hogan (1958) e por Hogan e Kimura
(1964), Perkins (1973), respectivamente afirmarem que
o envolvimento ocular na TSPN ocorre em 2 a 3% dos
casos e que no Reino Unido, quase todos os casos de
toxoplasmose ocular eram de origem congênita. Ademais,
que as complicações da toxoplasmose sistêmica
são mais frequentes quando há envolvimento do SNC.
Esses conceitos prevaleceram por vários anos. Entretanto,
Glasner, Silveira e Kruszon-Moran (1992) e Gilbert
e Standford (2000) ressaltaram a importância da infecção
sistêmica pós-natal na toxoplasmose ocular. Além
disso, a alta incidência da infecção pós-natal documentada
no sul do Brasil sugere que a infecção pós-natal
pode ser uma forma comum de transmissão da doença
(Glasner; Silveira; Kruszon-Moran, 1992). Outro estudo
na mesma região comprovou que 8,3% dos indivíduos
com infecção pós-natal, que não tinham retinocoroidite,
apresentaram cicatriz após período de sete anos (Silveira
et al., 2001). Gilbert e Standfort (2000) relatam que dois
terços dos casos de toxoplasmose ocular do Reino Unido
são de origem pós-natal.
A TSPN pode trazer sérias consequências a
imunodeprimidos, fetos de mulheres grávidas com
sorologia negativa da doença, além de comprometer a
visão, levando a danos irreversíveis, principalmente quando
o nervo óptico e mácula são envolvidos (Lieb et al.,
2004).
O diagnóstico da doença sistêmica pós-natal e o
reconhecimento da origem da infecção são essenciais
para o entendimento dos mecanismos básicos da infecção,
principalmente para a proteção dos pacientes de
risco, para o planejamento de programas de prevenção
e para orientação quanto às consequências terapêuticas
(Bosch-Driessen; Rothova, 1999).
O tratamento específico da TOPN consiste no uso
de pirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico. Quando
há intensa reação inflamatória, está indicado o uso de
corticosteróides via sistêmica. Assim, é importante o
correto diagnóstico da TSPN porque é sabido que a administração
de corticosteróides durante a parasitemia
(sem medicação específica para toxoplasmose) pode
causar acentuada destruição da retina e disseminação
descontrolada da infecção (Ronday et al., 1995).
Surtos de TSPN têm sido descritos em vários países
(Burnett et al., 1998, Mansur; Jones; Lempert, 1978;
Moura et al., 2006). De fato, em relação à epidemiologia,
a TSPN tem assumido importante papel em todo o mundo.
Isto chama a atenção para a importância do diagnóstico
não só do paciente acometido pela TSPN, mas também
da investigação da origem da doença sistêmica
aguda: quantos foram contaminados, quando ela ocorreu
e suas complicações. Luft e Remington (1984) comprovaram
que a infecção toxoplásmica aguda em membros
de família de pacientes com linfadenopatia causada pelo
T.gondii é comum. E que a toxoplasmose pode ser encontrada
em grupos ou pessoas infectadas a partir de
uma origem comum (Akstein; Wilson; Teutsch, 1982;
Gonçalves et al., 1995; Teutsch et al.,1979). Adicionalmente
tem sido verificada a presença de toxoplasmose
ocular em mais de um irmão em uma mesma família
(Pinheiro; Oréfice, 1990; Silveira et al., 1988).
Estudos recentes têm discutido o verdadeiro papel
da infecção sistêmica pós-natal na doença ocular. Alguns
autores (Bahia-Oliveira et al., 2003; Bowie et al., 1997;
Burnett et al., 1998; Ross et al., 2001; Silveira et al., 2001)
têm sugerido que a infecção sistêmica de origem pós-natal
seja uma importante causa de toxoplasmose ocular.
Oréfice et al. (2009) avaliaram casos com evidências
clínicas, sorológicas e epidemiológicas de
toxoplasmose ocular pós-natal e episódios de comprometimento
ocular como única manifestação da infecção
sistêmica em que não havia outras evidências clínicas
de TSPN. Pesquisas a respeito deste assunto e com tamanha
amostra são escassas na literatura mundial, pois essa
doença é de difícil diagnóstico e com casos de diagnósticos
frequentemente conflitantes (quadros 1 e 2).

Revisão da literatura
Histórico geral
Laveran (1900) parece ter sido o primeiro autor
a descrever o T. gondii em pardais de Java. Nicolle e
Manceaux (1908) identificaram o protozoário T. gondii
em um roedor norte-africano, Ctenodactylus gondii. Denominou-
o, então, Leishmania gondii. Porém, após captura
de outros roedores gondiis no ano seguinte e na
mesma área, observou que se tratava de um novo
protozoário, sendo então denominado toxoplasma. Na
mesma época, Splendore (1908), no Brasil, identificou o
T. gondii em coelhos. Os coelhos morreram por paralisia.
Eles foram necropsiados e encontraram-se corpúsculos
parasitários císticos.
O oftalmologista Janku (1923) foi considerado o
primeiro autor a descrever a toxoplasmose em humanos
na cidade de Praga. Ele realizou necropsia em uma criança
de 11 meses de idade que foi ao óbito devido a uma
doença grave e disseminada caracterizada por
hidrocefalia, microftalmia e coloboma de mácula.
No Brasil, Margarino Torres, em 1927, descreveu
um microorganismo intracelular encontrado em lesões
do sistema nervoso central (SNC), músculo-esquelético
e coração de um recém-nascido que foi ao óbito devido
à meningoencefalite. Ele considerou as lesões semelhantes
às produzidas na toxoplasmose experimental, apesar
de ter classificado o parasito como Encephalitozoon
Chagasi.
Wolf, Cowen e Paige (1939), nos Estados Unidos,
identificaram parasitos nas lesões do SNC de recém-nascido
que apresentou encefalomielite grave, convulsões,
dificuldade respiratória e retinocoroidite bilateral. Inocularam
o material em animais de laboratório experimentalmente
e concluíram que se tratava de
toxoplasmose.
A tétrade de sinais clínicos da doença congênita
(hidrocefalia ou microcefalia, retardo psicomotor,
calcificações intracranianas e retinocoroidite) foi evidenciada
por Sabin e Feldman (1948).
Os primeiros a relacionarem a doença ocular com
a infecção toxoplásmica foram Vail, Strong e Stepheson
(1943). Eles informaram seis casos de retinocoroidite
em adultos e jovens, nos quais encontraram títulos séricos
de anticorpos neutralizantes para toxoplasmose.
Koch et al. (1943) mostraram os achados
oftalmológicos em seis casos de encefalomielite
toxoplásmica infantil diagnosticada clinicamente. As lesões
oculares eram frequentemente focais, bilaterais e
múltiplas, sendo a região macular quase sempre envolvida,
embora outras lesões periféricas pudessem coexistir.
Eles consideraram as lesões necrotisantes e inflamatórias
de retina similares às encontradas no cérebro. Sugeriram
que a reticoroidite toxoplásmica deveria ser
procurada em crianças com alterações do SNC na primeira
infância.
Realizando um teste de neutralização em 211 pacientes
para avaliar sua especificidade, Heidelmann
(1945) concluiu que reações não específicas poderiam
ocorrer em 10 a 14% dos casos sem evidência clínica de
toxoplasmose. Sendo assim, a demonstração de
anticorpos neutralizantes deveria ser realizada com cautela
no diagnóstico de retinocoroidite congênita; e na
ausência desses anticorpos também não excluiriam a
possibilidade de infecção.
Foi a partir de 1948 que se iniciaram os primeiros
estudos epidemiológicos da toxoplasmose. Sabin e
Feldman (1948) desenvolveram o teste do corante ou teste
de Sabin-Feldman. Verificaram que o citoplasma do T.
gondii tornava-se distorcido e pouco corado após contato
com soro imune. Este inibe a coloração do citoplasma do
toxoplasma vivo pelo azul de metileno. O teste torna-se
positivo no início da infecção, com títulos ascendentes nas
fases ativas e diminui posteriormente. Sendo assim, tem
valor diagnóstico e indica a evolução da doença.
Frenkel (1949) descreveu as fases da infecção
toxoplásmica baseada na patogênese e nas manifestações
clínicas da infecção. Segundo o autor, a recorrência
da retinocoroidite em pacientes com cicatrizes na fase
crônica é atribuída à persistência do toxoplasma em estágio
latente nos pseudocistos que, quando rompidos, liberam
material antigênico. A retinocoroidite foi considerada
o sinal clínico mais frequente na toxoplasmose
crônica em pacientes assintomáticos.
Um percentual de 23% dos casos de uveíte posterior
tem como agente etiológico o T.gondii (Busacca;
Nobrega; Trapp, 1950).
Foi a partir de Wilder (1952) que uma nova fase
se iniciou no estudo da toxoplasmose ocular. Avaliaramse
53 olhos enucleados de pacientes com inflamação
ocular e que se apresentavam dolorosos ou cegos ao
exame. Foram encontrados toxoplasmas no centro das
lesões de retinocoroidite, na parte necrótica.
A oftalmia periódica em cavalos, causada pela
Leptospira pomona e pela Leptospira grippotyphosa, foi
avaliada por Witmer (1954), que analisou o soro e o humor
aquoso pela eletroforese e dosagem de anticorpos
nos dois fluidos. Essa investigação revelou a produção
local de anticorpos, pois em alguns casos houve maior
concentração de anticorpos específicos no humor aquoso
em relação ao soro.
Avaliando o soro e humor aquoso de 67 pacientes
(metade com suspeita de toxoplasmose ocular),
O'Connor (1957) salientou que 11 delas apresentavam
títulos positivos no soro e humor aquoso, enquanto sete
exibiam títulos positivos apenas no humor aquoso. Esse
fato levou-o a concluir que houve formação de anticorpos
intraocular.
Goldman (1957) desenvolveu o teste de
imunofluorescência para o T. gondii e, a partir de 1960, a
toxoplasmose passou a ser considerada a maior causa
de uveíte no mundo.
Desmonts (1966) estabeleceu coeficiente
toxoplásmico do humor aquoso, que exprimiria a concentração
relativa de anticorpos no humor aquoso em
relação ao soro, considerando a quantidade de globulinas
totais em cada fluido. Salientou-se que somente o coeficiente
de anticorpos acima de um provaria a produção
de anticorpos para toxoplasmose.
Comparando o teste de Sabin-Feldman com
imunofluorescência indireta (IFI), Camargo (1964) obteve
total concordância quanto à positividade, mas observou
títulos mais altos de positividade com a IFI, a
qual considerou de execução mais fácil, preconizando
seu uso no diagnóstico de toxoplasmose.
Histórico da toxoplasmose sistêmica pós-natal
Darling (1908, citado por Chaves-Caballo, 1970),
patologista do Panamá, descreveu um caso de um homem
de 20 anos de idade com uma doença aguda caracterizada
por febre, cefaléia e rigidez muscular. Exame
microscópico do tecido muscular revelou organismos
encistados, os quais Darling interpretou como sendo
sarcosporidia. Chaves-Caballo (1970) constatou que, na
verdade, esse organismo se tratava de T. gondii e preconizou
que Darling deveria ter recebido o crédito por ter
sido o primeiro a descrever toxoplasmose em um adulto
humano.
Os primeiros casos da forma adquirida da doença
com comprovação histológica foram notificados por
Pinketon e Henderson (1941). Relataram dois casos fatais
de uma doença exantemática febril com pneumonite
atípica em adultos, tendo sido encontrada grande quantidade
de toxoplasmas intracelulares em tecidos de ambos
os casos.
Ao examinar uma paciente oligofrênica admitida
no hospital, Siim (1950) observou linfonodos axilares
e inguinais. Um linfonodo foi excisado e apresentava
alterações compatíveis com infecção por T. gondii. Além
disso, teste do corante mostrou-se com títulos muito altos.
Wising (1952) foi o primeiro a descrever um caso
de toxoplasmose ocular adquirida durante o curso da
doença sistêmica. A infecção ocular ocorreu no estágio
final de uma doença febril em uma mulher de 31 anos
com linfadenopatia generalizada. O soro dessa paciente
mostrou aumento importante dos títulos do teste do
corante durante o curso da doença e a fixação do complemento
comprovou aumento dos títulos mais tardiamente.
Para Hogan (1958), para um diagnóstico conclusivo
de infecção toxoplásmica seria necessário o isolamento
do protozoário do fluido ou tecido do paciente com
doença aguda. Nesse mesmo trabalho, ele descreveu dois
casos de toxoplasmose ocular que se desenvolveu com
duas semanas e quatro meses, respectivamente após a infecção
toxoplásmica sistêmica aguda sintomática.
Posteriormente Hogan (1964) avaliou 240 casos
de uveítes de provável origem toxoplásmica, classificando-
os, segundo o aspecto clínico, evolução, sorologia
e presença ou ausência de calcificações cerebrais, em
toxoplasmose congênita e adquirida. Encontrou 40 pacientes
com toxoplasmose ocular congênita e cinco com
toxoplasmose ocular adquirida; dois casos ocorreram no
mesmo tempo que a toxoplasmose aguda sistêmica.
O estudo epidemiológico de Darrell et al. (1964),
entre nativos de uma ilha no Pacífico Sul, Moen, objetivou
determinar a prevalência de doença retinocoroidiana e
a prevalência de anticorpos antiT.gondii na região. Teste
do corante positivo foi encontrado em 80% de 162 pessoas
testadas e a porcentagem de testes positivos aumentou
com a idade. Altos títulos de 1:1024 foram encontrados
em 30% das pessoas com idade entre 5-9 anos e em 48%
das com idade entre 10-19 anos. Retinocoroidite foi apresentado
por 21 (11%) paciente e todos eles tiveram teste
do corante com títulos de 1:64 ou maior. Lesões de
retinocoroidite não foram constatadas em pessoas com
menos de 20 anos, mas houve aumento da frequência nos
grupos mais velhos (> 20 anos). Como a retinocoroidite
não foi encontrada entre os nativos nas faixas etárias de
5-9 e 10-19 anos, então esses títulos altos não seriam causados
por toxoplasmose congênita, e sim originados da
infecção toxoplásmica adquirida que ocorreu na infância
e adolescência dessas pessoas.
Kean, Kimball e Christensen (1969) realçaram
um surto de toxoplasmose adquirida aguda envolvendo
cinco estudantes de Medicina, em Nova York, que comeram
carne de hambúrguer contaminada. Todos manifestaram
cefaléia, mialgia, febre e linfadenopatia. O teste
do corante Sabin-Feldman e a fixação do complemento
revelou títulos muito altos. Avaliação oftalmológica foi
realizada em quatro pacientes e estes não apresentaram
lesões de retinocoroidite.
Em revisão de literatura para tentar esclarecer
a frequência da toxoplasmose ocular congênita e adquirida,
Perkins (1973) estabeleceu como critérios diagnósticos
de toxoplasmose recentemente adquirida: a
detecção de altos níveis de anticorpos, principalmente
o aumento progressivo dos títulos; a observação do
micro-organismo em biópsia de tecidos ou fluidos; e a
demonstração da infecção toxoplásmica em animais
após a inoculação de extratos de tecidos infectados com
o protozoário. Além disso, ressaltou que os casos de
retinocoroidite com evidência de sorologia positiva
para toxoplasmose devem ser considerados de origem
congênita, a menos que haja clara história de sinais e
sintomas de toxoplasmose recente. Ele concluiu com
esse trabalho que: a infecção subclínica por
toxoplasmose é muito comum no mundo e que as manifestações
sistêmicas são raras na doença adquirida e,
mesmo nesses casos, o envolvimento ocular ocorre em
2 a 3%; as complicações da toxoplasmose sistêmica são
mais frequentes quando o SNC é acometido (quando o
SNC é comprometido, lesões oculares são encontradas
em um quarto dos casos); uveíte como sinal único de
toxoplasmose adquirida é muito raro; quase todos os
casos de retinocoroidite vistos no Reino Unido são
consequentes à infecção congênita; não há evidências
convincentes de que uveíte anterior, vasculite retiniana
ou coroidite geográfica sejam causados por
toxoplasmose; infecção uterina pode ser responsável
por aborto, mas toxoplasmose congênita nunca foi confirmada
em irmãos; uma mulher com anticorpos
circulantes contra T. gondii não terá uma criança com
toxoplasmose congênita.
Um surto de toxoplasmose em pessoas que viviam
num mesmo domicílio em Nova York foi verificado
após ingestão de carne contaminada (Mansur; Jones;
Lempert, 1978). O objetivo desse estudo foi demonstrar a
capacidade da infecção toxoplásmica aguda em causar
infecção em várias pessoas ao mesmo tempo, partindo de
uma origem em comum. Seis dos sete pacientes acometidos
tiveram altos títulos de anticorpos contra T.gondii,
consistentes com infecção recente (títulos de DT e IFI
maior que 1:1024 e FC maior que 1:4 são sugestivos de
infecção recente). Cinco (83%) dessas pessoas eram sintomáticas.
As manifestações mais comuns foram febre e
linfadenomegalia, que se desenvolveram sete a 18 dias
após a ingestão da carne supostamente infectada. Um
paciente apresentou lesão de retinocoroidite 129 dias após
a infecção sistêmica aguda.
Michelson et al. (1978) encontraram um caso de
uma mulher de 43 anos na Pensilvânia que desenvolveu
toxoplasmose adquirida sistêmica (febre e linfoadenomegalia).
Oito dias após, apresentou
embaçamento visual no olho direito. Submetida ao exame
oftalmológico, foi evidenciada lesão de
coriorretinite no olho direito. A IFI (IgG) para
toxoplasmose foi de 1:1024 e cinco dias após chegou a
1:2048. Foi realizada biópsia excisional de linfonodo
axilar. O material foi corado pelo Giemsa, onde foram
encontrados cistos consistentes com T. gondii. O diagnóstico
foi então confirmado pelo isolamento de T. gondii
após injeção intraperitoneal em camundongos.
Um surto de toxoplasmose aguda que ocorreu em
outubro de 1977 em Atlanta, Geórgia, em pessoas que
cuidavam dos estábulos foi avaliado por Teutsch et al.
(1979). Trinta e sete pessoas apresentaram toxoplasmose
sistêmica adquirida aguda. Entre essas 37 pessoas, o diagnóstico
de 36 foi baseado somente na sorologia, como
se segue: 30 apresentaram IFI-IgG positivos, com títulos
> 1:4096; e 31 apresentaram títulos de IFI-IgM positivos;
25 apresentaram ambos os critérios sorológicos. O diagnóstico
de toxoplasmose aguda foi estabelecido por um
dos três métodos: presença no soro de títulos de anticorpos
antiT.gondii > 1:4096 pelo teste IFI; demonstração de
anticorpos específicos antiT.gondii IgM >1:16 pelo teste
IFI; ou presença da tríade clínica: febre, cefaléia e
linfadenomegalia. Dois de três gatos adultos que viviam
nos estábulos tinham positividade para toxoplasmose.
Os dados sugerem que oocistos de toxoplasma foram a
origem da infecção.
Stagno et al. (1980) documentaram um surto de
toxoplasmose com evidência clínica, sorológica e
epidemiológica, envolvendo 10 membros de uma mesma
família de 30 pessoas no Alabama. O principal paciente
acometido apresentou manifestações clínicas incomuns
como abscesso cerebral, lesões de retinocoroidite progressivas
e múltiplas, tonteira, alterações neurológicas,
hepatoesplenomegalia, pneumonite e eosinofilia. Esse
paciente de três anos de idade era previamente sadio. A
toxoplasmose foi confirmada pela demonstração do
micro-organismo no cérebro e fluido cérebro-espinhal e
existência de anticorpos antiT.gondii IgG e IgM positivos
no soro. Alta taxa de soropositividade para toxoplasmose
foi encontrada nas crianças em idade pré-escolar dessa
família. De 11 crianças, sete (68%) eram soropositivo para
toxoplasmose; entre as sete, seis tinham títulos indicativos
de infecção recente para toxoplasmose. Essas crianças e
um adulto manifestaram, ainda, sinais e sintomas de infecção
aguda por toxoplasmose. O adulto teve congestão
nasal, linfadenopatia cervical, tosse não produtiva. As
crianças apresentaram: tosse não produtiva (todas as seis),
congestão nasal (cinco), linfadenopatias (cinco), mal-estar
(quatro), pneumonite (quatro), leucocitose (três),
eosinofilia (dois), coriorretinite (dois) e envolvimento do
SNC (um). Geofagia foi associada estatisticamente à
toxoplasmose aguda entre as crianças. Evidência
epidemiológica indicou que o surto foi provavelmente
causado pela ingestão de oocistos de fezes de gato. A família
possuía uma gata. A sorologia para toxoplasmose
(hemaglutinação indireta) na gata salientou títulos positivos.
Além disso, foram colhidas amostras no solo do jardim
da casa, onde foram encontrados oocistos de T.gondii
Em 1982, Akstein, Wilson e Teutsch (1982)
pesquisaram um surto de toxoplasmose nos Estados
Unidos, em Atlanta, Georgia. Estudo epidemiológico
realizado pelo Center for Disease Control (CDC) sugeriu
que a origem dos oocistos de toxoplasma era de
gatos infectados que viviam nos estábulos e que as
pessoas foram contaminadas por aspiração dos oocistos
ou contágio oral, através das mãos; 37 pessoas ficaram
doentes e/ou tiveram evidência sorológica de infecção
aguda por toxoplasmose; 36 demonstraram
anticorpos antiT.gondii; 30 dos 36 apresentaram títulos
de IFI-IgG positivos > 1:4096; e 31 tiveram títulos
de IFI positivos para IgM. Somente um paciente foi
classificado como caso baseado apenas na síndrome
clínica. Todos, exceto dois, eram sintomáticos e 25 tiveram
a tríade clínica completa: febre, cefaléia e
linfadenopatia. A todos os 37 pacientes foi oferecido
exame oftalmológico um ano e quatro anos após o
surto, tendo 17 sido examinados um ano após o surto.
Todos os 37 pacientes foram aconselhados a procurar
seu médico oftalmologista, caso apresentassem qualquer
sintoma visual, e contatar os autores para posterior
seguimento. Depois de quatro anos, 21 pacientes
foram reexaminados pelos autores e quatro por seu
oftalmologista. Três indivíduos estavam vivendo fora
de Geórgia, mas não relataram sintomas visuais. Após
o primeiro ano, nenhum dos 17 exibiu doença ocular.
Posteriormente ao reexame quatro anos após o surto,
um paciente dos 28 examinados apresentou lesão
ocular compatível com toxoplasmose.
Ao acompanhar 36 indivíduos que habitavam
uma fazenda no interior de Minas Gerais, Coutinho et al.
(1982) encontraram que nove desses pacientes apresentaram
a forma glandular da toxoplasmose adquirida
sistêmica entre maio e agosto de 1976, bem como títulos
de anticorpos antiT.gondii IgG e IgM positivos pelo
método IFI. Um total de 12 pessoas foi classificado como
indefinido - ou por apresentarem clínica de toxoplasmose
aguda, porém com títulos de anticorpos baixos (dois casos),
ou por não apresentarem clínica da doença aguda,
mas com sorologia consistente de infecção recente (sete
casos). Dezessete casos apresentaram positividade para
IgM. São fatores suspeitos da causa do surto: a carne de
porco mal-cozida durante um churrasco e o solo ou vegetais
contaminados com oocistos.
Benenson et al. (1982) descreveram um surto de
toxoplasmose aguda sistêmica que ocorreu no Panamá
em 39 de 98 soldados norte-americanos, verificando que
os anticorpos IFI antiT.gondii IgM de 28 dos 39 eram acima
de 1:64. Testes sorológicos de 59 assintomáticos revelaram
anticorpos antiT.gondii IgM >1:64 em três deles.
Identificou-se um total de 31 casos confirmados de
toxoplasmose aguda (IgM IFI>1:64). Além disso, quatro
soldados tiveram resultados sorológicos, indicando provável
infecção, e 32 dos 35 soldados (91%) eram sintomáticos.
Os sintomas mais frequentes eram febre em 90%
dos casos, calafrios em 87%, cefaléia em 77%, mal-estar
em 74%, mialgia em 68%, rigidez de nuca em 35%, dor
abdominal em 55%, náuseas e vômitos em 36%, artralgias
em 29% e dor ocular em 26%. Linfadenopatia foi observada
em 77% dos casos e a localização mais acometida
foi a cadeia cervical posterior em 58%, axilar em 48% e
anterior em 19%. Esplenomegalia manifestou-se em um
paciente e hepatomegalia em dois. Nenhum teve comprometimento
ocular juntamente com a doença aguda.
Eles ingeriram água de um riacho e se contaminaram.
Para determinar a ocorrência de T.gondii em familiares
de nove pessoas que apresentaram
linfadenopatia devido à toxoplasmose sistêmica aguda,
Luft e Remington (1984) procederam a um estudo que
considerou infecção por toxoplasma sistêmica aguda a
presença de anticorpos IgM pelo método duplo-sanduíche
Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay (ELISA). Em
cinco das nove famílias estudadas, pelo menos mais de
um membro de cada família tiveram evidência sorológica
de infecção aguda recente por T. gondii. Em três das cinco
famílias, os títulos de antiIgG e IgM para T. gondii em
vários membros que tiveram evidência sorológica de aquisição
de infecção recente eram similares, independentemente
se a linfoadenopatia estava presente ou não. Um
total de 20 pessoas apresentou IgM positiva. Em quatro
das cinco famílias nos quais múltiplas pessoas foram
infectadas, havia gatos; em duas, membros ingeriram leite
de cabra não-pasteurizado antes da infecção; em uma verificou-
se ingestão de carne de cordeiro mal passada duas
semanas antes de sintomas sistêmicos de febre e mal-estar.
Concluiu-se que surtos de infecção por toxoplasma
ocorrem frequentemente entre membros da mesma família
e com a origem da infecção em comum. E que a
resposta humoral não se altera com as várias formas de
apresentação clínica da doença sistêmica.
Mulher francesa de 28 anos e grávida com cinco
meses de gestação apresentou linfonodos submaxilares.
O teste do corante foi positivo e
anticorpos antiT.gondii IFI IgM positivos. A criança
nasceu com sinais de toxoplasmose congênita como
calcificações cerebrais, hepatoesplenomegalia,
microftalmia e cultura de placenta positiva para
toxoplasmose. Aos seis anos de idade, a criança teve
lesões de retinocoroidite. A mãe, cinco anos após a doença
sistêmica, apresentou lesão de retinocoroidite no
olho direito (Leblanc et al., 1985).
A ocorrência de toxoplasmose ocular em 112 famílias
na cidade de Erechim, Rio Grande do Sul, Brasil,
foi analisado por Silveira et al. (1988). Todos os pacientes
tiveram achados sorológicos para toxoplasmose, quadro
clínico típico de toxoplasmose ocular com
retinocoroidite necrosante frequentemente associada a
lesões satélites e exclusão de outras causas de
retinocoroidite focal, como sífilis e tuberculose.
Vários modelos familiares de toxoplasmose
ocular foram observados, como acometimento da mãe
e uma criança em nove famílias; a mãe e duas crianças
em uma família; a mãe e três crianças em quatro
famílias; a mãe e quatro crianças em uma família; a
mãe e seis crianças em uma família; e a mãe e oito
crianças em uma família. Toxoplasmose ocular estava
presente também em dois irmãos de 60 famílias,
três irmãos em 18 famílias, quatro irmãos em seis famílias,
cinco irmãos em três famílias e seis irmãos em
quatro famílias. Em todas essas famílias não havia
gêmeos. O quadro clínico típico de toxoplasmose ocular
foi também observado em três sucessivas gerações
de mulheres em uma das famílias.
Um levantamento de 100 crianças de 10 a 15 anos
de idade numa escola pública em Erechim mostrou que
somente duas delas não tinham no soro anticorpos para
toxoplasmose (98% de soropositividade). Muitas também
tinham anticorpos IgM no soro contra o parasito, sugerindo
infecção adquirida recentemente (Silveira, 1988).
Rehder et al. (1988) comentaram um caso de um
paciente com acquired immunodeficiency syndrome
(Aids) que desenvolveu iridociclite aguda unilateral de
origem toxoplásmica. Anticorpo antiT.gondii IgG no soro
foi de 1:8000 e IgM negativa. O paciente faleceu um
mês após e o exame anatomopatológico revelou a presença
de cistos de Toxoplasma gondii no estroma da íris
e ausência de cistos na retina.
Um paciente de 31 anos de idade com história de
deterioração da acuidade visual bilateral em uma semana
foi avaliado por Hausmann e Richard (1991). O
olho direito, à fundoscopia, exibia oclusão de veia central
da retina; e o olho esquerdo, coroidite disseminada.
Os autores consideraram o diagnóstico de toxoplasmose
adquirida, porque o paciente apresentou soroconversão
(três anos antes a IFI IgG e IgM para toxoplasmose era
negativa). Durante o quadro oftalmológico, a IFI para
toxoplasmose foi de 1:2046 e anticorpos antiT.gondii IgM
1:20. Além disso, outras doenças infecto-contagiosas foram
descartadas, como tuberculose, sífilis e
citomegalovírus; e houve boa resposta ao tratamento
específico para toxoplasmose.
Devido à alta frequência da toxoplasmose ocular
e a ocorrência em vários irmãos em Erechim, Rio
Grande do Sul, Brasil, Glasner, Silveira e Kruszon-
Moran (1992) realizaram estudo para compreender
melhor a epidemiologia da toxoplasmose naquela região.
Participaram da pesquisa 1.042 pacientes, tendo
184 (17,7%) apresentado toxoplasmose ocular. Entre
os que tiveram toxoplasmose ocular, 183 (99,5%) tinham
anticorpos antiT-gondii IgG, comparados com
140 de 181 pacientes-controle (77,4%; p<0,001). A
prevalência da toxoplasmose ocular foi de 0,9% entre
as idades de um a oito anos, 4,3% entre nove e 12
anos, 14,3% entre 13 e 16 anos e 21,3% naqueles com
13 anos ou mais. A prevalência da toxoplasmose ocular
nessa população foi 30 vezes mais alta que em
qualquer outro lugar no mundo. A infecção congênita
é uma improvável explicação para essa alta
prevalência, porque, comparada com a prevalência
da doença ocular em adultos (mais de 20%), a infecção
congênita por T. gondii é provavelmente incomum
nessa população. Além disso, a toxoplasmose congênita
sistêmica clinicamente reconhecível tem sido pouco
observada pelos médicos pediatras em Erechim. E
menos de 1% de sangue coletado do cordão umbilical
no hospital de Erechim teve sorologia IgM positiva
para toxoplasmose em 1990. A baixa quantidade de
retinocoroidite verificada em crianças menores de
nove anos não é consistente com infecção congênita.
Apesar da frequência não ter sido determinada nesse
estudo, a ocorrência de lesão ocular em irmãos, em
algumas famílias nessa região, não pode ser
consequente à sequela de infecção congênita.
A baixa prevalência da doença ocular em crianças
mais novas sugere que, nos pacientes dessa cidade, a
toxoplasmose ocular é sequela de infecção pós-natal, e
não de infecção congênita.
Beniz (1993) destacou três casos de toxoplasmose
ocular adquirida. Dois pacientes apresentaram
sintomatologia da infecção toxoplásmica sistêmica anteriormente
à doença ocular, lesões de retinocoroidite solitárias
em atividade e anticorpos antiT.gondii IgG e IgM
positivos. Um indivíduo não tinha sintomas sistêmicos e,
além disso, à fundoscopia, havia uma lesão de
retinocoroidite cicatrizada no mesmo olho em que a lesão
de retinocoroidite estava em atividade. Porém, os exames
laboratoriais confirmaram a infecção toxoplásmica
sistêmica: IgM positiva pelo método ELISA e IFI IgG
positiva. Sugeriu-se que, no paciente em que havia uma
lesão cicatrizada, esta seria de outra etiologia.
O envolvimento ocular na toxoplasmose avaliado
por Rothova (1993) e permitiu-lhe concluir que
o diagnóstico de toxoplasmose ocular durante a infecção
adquirida aguda pode ser difícil e que, apesar
desse diagnóstico ser principalmente clínico, no caso
da toxoplasmose sistêmica adquirida aguda a
sorologia seria indispensável. Nesse caso, os títulos
de anticorpos seriam frequentemente altos. E, para
um diagnóstico conclusivo de toxoplasmose ativa,
seria necessário o isolamento de T.gondii de fluidos
corporais ou tecidos durante o curso da doença aguda,
o que seria muito difícil.
Melamed (1994) descreveu um caso de
toxoplasmose ocular adquirida de aparecimento tardio.
Uma mulher de 39 anos apresentou “floaters”, baixa da
acuidade visual no olho esquerdo. À fundoscopia, foi evidenciada
lesão de retinocoroidite em atividade próxima
ao disco óptico. Baseado na presença de anticorpos
antitoxoplasma, após serem afastadas outras causas de
doenças infecciosas, história clínica, história pregressa e
tratamento para toxoplasmose bem-sucedido, foi
diagnosticada toxoplasmose ocular. A paciente refere
história pregressa de infecção toxoplásmica sistêmica
13 anos antes, no último trimestre de gravidez. O bebê
nasceu prematuro, com hepatoesplenomegalia, icterícia
sendo diagnosticada, portanto, toxoplasmose congênita.
O bebê apresentou, à fundoscopia, numerosas cicatrizes
de retinocoroidite, hidrocefalia, calcificações cerebrais
à tomografia computadorizada. Anticorpos antitoxoplasma
gondii foram positivos. O autor concluiu então
tratar-se de toxoplasmose ocular adquirida de aparecimento
tardio.
Dois casos de toxoplasmose ocular adquirida foram
abordados por Nussenblatt e Belfort (1994). Um
deles, de 20 anos, apresentou febre, linfadenomegalia e
perda de peso. Quatro meses após, baixa da acuidade
visual no olho direito (OD) e lesão de retinocoroidite
em atividade nesse olho. Anticorpos antiT.gondii IgG e
IgM foram positivos. Outro paciente, de dois anos de
idade, manifestou febre e linfadenopatia, anticorpos
antiT.gondii IgG e IgM positivos. Fundoscopia sem alterações.
Oito anos após, exibiu cicatriz macular no olho
esquerdo (OE) e anticorpos IgG positivo e IgM negativo
para toxoplasmose.
O estudo de Gonçalves et al. (1995) identificou
três casos de comprometimento ocular por toxoplasmose
adquirida um mês após a doença sistêmica, em membros
da mesma família. Os pacientes apresentaram
linfadenomegalia cervical, febre, mialgia e hiporexia.
Exames sorológicos revelaram anticorpos (método
ELISA) IgG e IgM para T.gondii positivos. Dois indivíduos
tiveram envolvimento bilateral. Um manifestou
neurite num olho e retinocoroidite no outro olho. O
envolvimento dos três pacientes sugere uma fonte comum
de infecção.
Um caso de uveíte anterior granulomatosa sem
retinocoroidite em um paciente de 21 anos foi avaliado
por Oréfice e Tonelli (1995). O paciente teve cefaléia,
febre e linfadenomegalia cervical bilateral e 14 dias
depois baixa da acuidade visual no olho direito. Foram
excluídas outras doenças infecciosas e a sorologia para
toxoplasmose um mês após demonstrou IFI IgG e IgM
positivas para Toxoplasma gondii. O exame foi repetido
e confirmado em outro laboratório.
Ronday et al. (1995) relataram oito casos de
retinocoroidite focal presumidamente causada por
toxoplasmose adquirida. Os pacientes foram submetidos
a exame oftalmológico, sorologia para toxoplasmose
e vírus e determinação da produção de anticorpos
antiT.gondii IgG no aquoso por meio do coeficiente de
Witmer-Desmonts. Um coeficiente acima de três foi considerado
positivo. O diagnóstico de toxoplasmose ocular
pós-natal foi baseado nos achados clínicos, ou seja: presença
de retinocoroidite focal sem cicatrizes pré-existentes
e a existência de anticorpos antiT.gondii IgM (em
todos os oito pacientes), em combinação com a
soroconversão, precedendo as queixas oculares (um de
oito pacientes); aumento dos títulos de anticorpos
antiT.gondii IgG de quatro vezes no soro por um período
de três semanas (um paciente); altos níveis de
anticorpos antiT.gondii IgG (>1024, em sete de oito pacientes);
ou a produção de anticorpos contra T. gondii
intraocular cinco de oito pacientes). A conclusão é que a
retinocoroidite unilateral e focal deve servir de alerta
para os clínicos considerarem a toxoplasmose ocular
adquirida no diagnóstico diferencial de outras causas de
retinocoroidites; e que, também, se deve ter cautela na
prescrição de corticosteróides para esses pacientes.
Os seis pacientes avaliados por Stehling e Oréfice
(1996) tinham toxoplasmose adquirida sistêmica seguida
por comprometimento ocular com intervalo entre a
doença sistêmica e doença ocular variável (intervalo de
latência). Apresentavam também sorologia para
toxoplasmose positiva: IgG e IgM (ELISA e/ou IFI). Outras
causas de infecção sistêmica como sífilis, tuberculose,
mononucleose foram afastadas:
No caso 1, uma paciente com toxoplasmose
subclínica durante a gravidez e que após seis anos apresentou
lesão de retinocoroidite em atividade no OE. O
filho nasceu com quadro típico de toxoplasmose ocular
congênita.
No caso 2, havia sintomas sistêmicos e, após 15
meses, retinocoroidite no OE recidivada por duas vezes.
Após cinco anos da doença sistêmica, verificou-se lesão
de retinocoroidite no OD.
No caso 3, um paciente exibiu lesão de
retinocoroidite no OD sete dias após a infecção sistêmica.
Adicionalmente, seu pai possuía infecção sistêmica, mas
sem comprometimento ocular.
Já o caso 4 manifestou toxoplasmose adquirida
subclínica, com lesão ocular. A irmã dessa paciente teve
toxoplasmose sistêmica durante a gravidez, cujo recémnascido
teve toxoplasmose congênita com lesão ocular
bilateral. O noivo da paciente com lesão ocular aguda
também apresentou infecção toxoplásmica aguda, porém
sem alteração ocular.
No caso 5 havia lesão de retinocoroidite bilateral,
com recidivas e intervalo entre a doença sistêmica e
ocular de seis anos no OD e nove no OE.
O caso 6 era de toxoplasmose ocular bilateral
aguda juntamente com a doença sistêmica.
Montoya e Remington (1996) analisaram 22 casos
de pacientes com retinocoroidite por toxoplasmose
aguda baseados nos achados clínicos e nos seguintes resultados
sorológicos positivos (95,5% teste de Sabin-
Feldman; 95,5% ELISA anticorpos antiT. gondii IgM;
90,9% ELISA anticorpos antiT. gondii IgA; 77,3%
ELISA anticorpos antiT. gondii IgE; 95,5% ISAGA
anticorpos antiT.gondii IgE; e 86,4% teste AC-HS - teste
diferencial de aglutinação - no qual se comparam os
títulos de taquizoítos fixados com formalina-antígenos -
HS com os taquizoítos fixados com acetona ou metanolantígenos
AC). Um total de 21 pacientes apresentou IgM.
Em um paciente a IgM foi negativa, porém, com IgA,
IgE, teste aglutinação e AC-HS positivos. A detecção de
anticorpos antiT.gondii IgA e IgE ou o modelo agudo do
teste AC-HS foram particularmente de grande ajuda no
diagnóstico de pacientes, nos quais os títulos de
anticorpos antiT.gondii ELISA eram negativos ou fracamente
positivos. Esses exames sorológicos são de valia
no diagnóstico de infecção aguda, pois a presença de
IgM somente não faz diagnóstico de infecção aguda.
Num período de 13 anos, Couvreur e Thulliez
(1996) estudaram 49 casos de toxoplasmose adquirida
complicada com envolvimento ocular e/ou neurológico
ou envolvimento meníngeo. Eles encontraram 43 casos
de lesão ocular, três de meningoencefalite (um caso era
associado à retinocoroidite), um de meningite com
uveíte, um de poliradicoloneurite e um de paralisia facial.
O diagnóstico de doença toxoplásmica adquirida recente
foi baseado nos sinais clínicos e/ou sorológicos
(presença de anticorpos antiT.gondii IgM positivos) da
infecção recente. Todos os casos eram imunocompetentes.
Aumento súbito de casos de toxoplasmose aguda
sorologicamente diagnosticados foram verificados por
Bowie et al. (1997), na província de Greater Victoria,
em março de 1995. Foram definidas 100 pessoas como
casos agudos de toxoplasmose. Desses, 94 residiam em
Greater Victoria e seis haviam visitado a região; 19 tiveram
retinite, 51 linfadenopatia, quatro com sintomas
consistentes com toxoplasmose, sete com outros sintomas,
18 sem sintomas e um não deu nenhuma informação.
De 3.812 grávidas, 36 que estiveram grávidas recentemente
foram consideradas casos. Os casos foram
encontrados somente naquela região. Mapeamento dos
eventos, das mulheres selecionadas e de ambos os estudos
caso-controle mostrou significante associação entre
infecção aguda e residência na área onde havia distribuição
de um reservatório de água para Greater
Victoria.
Burnett et al. (1998) relataram casos de
toxoplasmose adquirida devido à contaminação de um
reservatório de água na ilha Victoria, British Columbia,
Canadá. Desses 100 pacientes, 20 (21 olhos) apresentaram
retinocoroidite toxoplásmica adquirida. Os casos
foram definidos como pacientes aqueles com achados
sorológicos sugestivos de toxoplasmose adquirida
(anticorpos antiT.gondii IgM e IgG positivos) e evidência
de envolvimento retiniano. Todos os pacientes foram
entrevistados para identificar fatores de risco, sinais e
sintomas de toxoplasmose.
Com o objetivo de identificar a frequência da
infecção recentemente adquirida versus infecção
sistêmica crônica por T. gondii em pacientes com
toxoplasmose ocular, Ongkosuwito et al. (1999) avaliaram
soro de 22 casos com toxoplasmose ocular primária
(lesão de retinocoroidite única, sem cicatrizes)
e 42 casos com toxoplasmose ocular recorrente, que
foram testados quanto à presença de antiTgondii IgM,
IgG e IgA e comparados com amostras de 24 outras
causas de uveíte. Eles consideraram como critérios
diagnósticos da fase aguda da toxoplasmose sistêmica:
presença de antiT.gondii IgM no soro, aumento dos
títulos de antiT.gondii IgG quatro vezes o valor inicial
ou soroconversão. Determinação de antiT.gondii
IgA no soro foi usado como diagnóstico adicional de
infecção adquirida recente, especialmente em
neonatos; 50% dos casos com TOP estavam na fase
aguda da infecção sistêmica e em 2% dos casos com
toxoplasmose ocular recorrente.
As recorrências de infecção ocular nos pacientes
com toxoplasmose adquirida pós-natal foram investigadas
por Bosch-Driessen e Rothova (1999), sendo encontradas
em 57% de 14 casos. Eles consideraram como pacientes
em fase aguda da toxoplasmose sistêmica: existência de
anticorpos específicos IgM ou IgA no soro; aumento no
soro de anticorpos IgG de quatro vezes dentro de um mês
após o exame inicial; níveis de anticorpos IgG no soro acima
de 1:4096; ou a combinação desses fatores.
No estudo de Holland et al. (1999a), 10 pacientes
com toxoplasmose ocular adquirida apresentaram inflamação
intraocular na ausência de retinocoroidite. Evidências
sugestivas de infecção recente incluíam testes
sorológicos (presença de anticorpos antiT. gondii IgM
ou títulos IgG muito elevados) ou sinais e sintomas clínicos
de toxoplasmose sistêmica (linfadenopatia, mal-estar,
febre, faringite, ausência de outras causas
identificáveis de doenças infecciosas, história de ingestão
de carne mal cozida ou residência em área endêmica no
Brasil) ou ambos, evidência sorológica e clínica. Oito
pacientes tinham IgM positiva. Um paciente que apresentou
IgM negativa teve sintomatológica típica de infecção
toxoplásmica pós-natal e títulos de anticorpos IgG
muito altos. O outro caso apresentou história de ingestão
de carne mal cozida.
Chiquet et al. (2000) acompanharam um caso de
uma paciente de 43 anos imunodeprimida devido a um
transplante hepático e que apresentou, após três semanas,
baixa da acuidade visual em olho esquerdo. A
sorologia do doador do órgão era positiva para
Toxoplasma gondii. A paciente transplantada, anteriormente
ao transplante, apresentava IgG antiT.gondii negativa.
Foram, então, após baixa da acuidade visual, realizados
novos exames sorológicos e a paciente exibiu
positividade para IgG e IgM antiT.gondii (soroconversão).
Realizada a reação em cadeia da polimerase
(PCR) no humor aquoso esta confirmou a infecção
toxoplásmica.
Tentando esclarecer se a toxoplasmose ocular
seria causada pela infecção adquirida ou congênita,
Gilbert e Stanford (2000) concluíram que a evidência
de retinite na ausência de cicatrizes de retinocoroidite
prévias em adolescentes ou adultos é consistente com a
infecção pós-natal. Sinais de toxoplasmose aguda, como
linfadenopatia, aumentam a probabilidade de infecção
pós-natal. Quanto aos achados sorológicos, é evidência
de infecção pós-natal a detecção de anticorpo
antiT.gondii IgM em adultos, o que não afasta, porém, a
infecção pré-natal.
Gómez-Marin et al. (2000) estudaram a frequência
de anticorpos antiT.gondii IgM, IgA e IgE em 28 pacientes
colombianos com toxoplasmose ocular aguda e crônica.
Constataram que 10% dos indivíduos com o primeiro
episódio de toxoplasmose ocular eram devidos à infecção
adquirida recente, ou seja, presença simultânea de
IgM, IgA e IgE. Foram encontrados oito casos com títulos
de anticorpos IgM antiT.gondii positivos.
Ross et al. (2001) avaliaram cinco casos de
toxoplasmose ocular adquirida em pacientes com história
pregressa de ingestão de carne mal passada de veado
ou manipulação de carne crua em homens previamente
saudáveis. Todos os pacientes tiveram história de
doença pregressa à infecção ocular semelhante à gripe.
Além disso, tinham títulos de anticorpos antiT.gondii IgG
e IgM elevados.
No intuito de entender melhor a história natural
da toxoplasmose, Silveira et al. (2001) fizeram exame
oftalmológico (oftalmoscopia indireta em todos pacientes
e retinografia em alguns casos) e testes sorológicos
para T.gondii em 383 pacientes no Sul do Brasil em 1990
e repetiram os mesmos testes em 1997. Desses 383 pacientes,
109 eram soronegativo para toxoplasmose em
1990 e, em 1997, 21 (19,3%) tornaram-se soropositivo e
dois (1,5% dos pacientes soronegativo e 9,5% dos que
soro converteram) tiveram toxoplasmose ocular. De 131
pacientes soropositivos sem lesão ocular em 1990, 11
tiveram lesão ocular típica de toxoplasmose em 1997;
13 tinham lesões retinianas hiperpigmentadas atípicas
na retina em 1990 e em 1997, três apresentaram lesão
típica para toxoplasmose. Eles concluíram que a infecção
toxoplásmica adquirida sistêmica pode levar à doença
ocular tardia.
O estudo retrospectivo de Bosch-Driessen et al.
(2002) com uma amostra de 154 pacientes com
toxoplasmose ocular ativa enfatizou lesões primárias de
retina em 28% dos casos e a combinação de lesões ativas
e cicatrizes antigas em 72% deles. Pacientes com
toxoplasmose ocular primária eram mais velhos que
aqueles com a combinação de lesões ativas e cicatrizes
antigas (p<0,001) e estes apresentavam intensa reação
inflamatória. O percentual de 82% (14 casos) com características
sorológicas da fase aguda da doença
sistêmica (presença de anticorpos antiT.gondii IgM e
ou IgA) tinham lesões primárias, comparados com 23%
dos pacientes com toxoplasmose ocular na fase crônica
da infecção sistêmica (p<0,001). Somaram-se 10 casos
com IgM positiva. Extensas lesões retinianas foram mais
frequentemente observadas durante a fase aguda da infecção
sistêmica (p=0,02) e em pacientes com
toxoplasmose ocular primária (p<0,04). Eles concluíram
que as recorrências em 79% dos pacientes podem
ocorrer anos após e que acometem mais frequentemente
o olho afetado previamente. Os fatores de risco para
perda visual foram: infecção congênita, toxoplasmose
ocular durante a fase aguda da infecção sistêmica, localização
central e extensão das lesões e administração de
corticosteróides sem a cobertura das drogas
antiparasitárias.
Entre outubro de 1995 e março de 2002, Carme
et al. (2002) descreveram 16 casos de toxoplasmose adquirida
em pacientes imunocompetentes na Guiana Francesa.
Ressaltaram que 12 pacientes tiveram
soroconversão recente. Quanto aos outros quatro, a IgM
associada à IgA ou à baixa avidez de IgG foi altamente
sugestiva de infecção recente. Em todos os episódios, a
apresentação clínica foi marcada por sintomas semelhantes
aos da síndrome infecciosa, como alteração do
estado geral, perda de peso e febre. Em algumas vezes,
verificaram-se aumento de enzimas hepáticas (15 pacientes),
aumento de linfonodos (nove pacientes) e
envolvimento pulmonar (14 pacientes), baço (oito pacientes)
e ocular (quatro pacientes). Treze pacientes declararam
o consumo de carne de caça duas semanas antes
do início dos sintomas. Dois confirmaram o consumo,
porém não souberam precisar se foi recente ou não.
Um caso de paciente imunocompetente que apresentou
toxoplasmose pulmonar foi notificado por Viegas
et al. (2002). O indivíduo apresentou anticorpos
antiT.gondii IgG e IgM positivos, com boa resposta ao
tratamento específico para toxoplasmose.
Com o objetivo de determinar a soroprevalência
de anticorpos antiT.gondii em pacientes com doença ocular
na Eslovênia, Logar et al. (2002) avaliaram 413 pacientes
com doença ocular, sendo a sorologia positiva
para toxoplasmose em 236 (57,1%). Destes, em 218
(92,4%) a IgG foi positiva; 202 tinham baixos títulos de
1:16 - 1:256; e 16 (7,3%) demonstraram títulos de 1:1024
- 1:6384. Em 18 dos 236 (7,6%), a idade dos pacientes
variou entre 20 e 74 anos e estes apresentaram anticorpos
IgM positivos. Onze desses 18 pacientes também apresentaram
anticorpos antiT.gondii IgA positivos. Pôde-se
concluir que toxoplasmose aguda foi detectada em 18
de 413 pacientes. E que coriorretinite em infecção
toxoplásmica sistêmica aguda não associada a outras
cicatrizes provavelmente reflete infecção adquirida pósnatal.
Ramchandani et al. (2002) identificaram um caso
de uma paciente que teve toxoplasmose ocular adquirida
durante a gravidez. Ela estava com nove semanas de
gestação e baixa da acuidade visual no olho esquerdo. À
fundoscopia, apresentou lesão de retinocoroidite em atividade,
superiormente à fóvea. Foi realizado o teste do
corante para toxoplasmose, que revelou título de 1/4096
(2000 UI/mL), anticorpo antiT.gondii IgM (ELISA) positivo.
A avidez de IgG para toxoplasmose demonstrou
que a infecção era aguda. A PCR para T.gondii em sangue
periférico da grávida foi negativa.
Em revisão sobre a imunopatogonêse na
toxoplasmose, Hegab & Al-Mutawa (2003), dando ênfase
aos problemas oculares devido à alta morbidade da
doença, definiram para o diagnóstico de toxoplasmose
adquirida a presença de anticorpos antiIgM no soro ou o
aumento dos títulos de IgG quatro vezes.
Foram revistos prontuários de 189 pacientes
(243 olhos) com toxoplasmose ocular, examinados
entre 1972 e 1999 (Atamaca; Simsek; Batioglu, 2004).
Realizou-se retinografia e, em alguns pacientes, procedeu-
se à angiofluoresceinografia e indocianina
verde. Do total, 140 (74%) tiveram toxoplasmose
ocular congênita e 49 (26%) toxoplasmose ocular
adquirida. Cinco pacientes apresentaram IgM positiva.
Os critérios usados para diagnóstico de
toxoplasmose ocular adquirida foram lesão retiniana
única sem qualquer cicatriz nos olhos e, adicionalmente,
a constatação de anticorpo antiT.gondii IgM
no soro e o aumento dos títulos de anticorpo
antiT.gondii IgG quatro vezes a titulação inicial.
Lieb et al. (2004) descreveram uma paciente com
retinite toxoplásmica adquirida aguda semelhante à
maculopatia idiopática aguda. Uma mulher de 39 anos
de idade apresentou baixa da acuidade visual no olho
direito em janeiro de 2003. A família declarou o hábito
de comer carne de veado caçado pelo marido. A paciente
teve história pregressa de doença semelhante a resfriado
comum em dezembro de 2002, que melhorou
várias semanas após. Além disso, detectou linfonodo
occipital por três dias. Exames laboratoriais anticorpos
antiT.gondii IgG e IgM foram positivos.
A distinção sorológica entre infecção congênita
e adquirida na doença ocular toxoplásmica mostra que
antiT.gondii IgG com baixos títulos provavelmente se
deve à reativação da doença congênita. Títulos altos de
antiT.gondii IgM são verificados em pacientes com doença
adquirida aguda; se negativos, indicam a reativação
da doença congênita. Em relação à avidez de IgG, caso
esteja alta, exclui-se infecção recente de menos de 3-4
meses, porém a baixa avidez pode persistir por até três
meses após a primo-infecção. A produção de anticorpos
antiT.gondii intraocular, determinada pelo cálculo do
coeficiente de Goldmann-Wittmer ou Wittmer-
Desmonts, confirma o diagnóstico de toxoplasmose ocular,
constituindo-se em uma prova indireta da existência
do parasito dentro do olho. A PCR em vítreo ou humor
aquoso é indicada em pacientes com lesões retinianas
atípicas ou resposta inadequada à terapia (Montoya;
Liesenfeld, 2004).
A revisão de Bonfioli e Oréfice (2005) sobre
toxoplasmose destaca que a infecção adquirida recente
se caracteriza pelo aumento de anticorpos antiT.gondii
IgG e baixa avidez de IgG, além do aumento dos
anticorpos contra T.gondii IgM, IgA e IgE.
Numa pesquisa em Erechim, Rio Grande do Sul,
Brasil, Jones, Alexander e Roberts (2006) procuraram
determinar os fatores de risco para toxoplasmose aguda
naquela área. O questionário foi preenchido por
130 pessoas, informando sobre seus hábitos alimentares
relativos a fatores de risco para a doença. Foram
tidos como casos de infecção recente por T. gondii
pacientes com teste positivo para anticorpos
antiT.gondii IgG e IgM. Concluiu-se que cuidados devem
ser tomados em relação à manipulação com o
solo, ingestão de água e alimentos, para reduzir-se o
risco de infecção pelo T.gondii.
Exames sorológicos para toxoplasmose foram feitos
por Palanisamy et al. (2006) em 249 indivíduos durante
o surto na cidade de Coimbatore, Índia, em 2004.
Em todos os casos houve baixa da acuidade visual. Exame
oftalmológico foi consistente com toxoplasmose ocular.
Testes sorológicos como anticorpos antiT.gondii,
ELISA, IgG e IgM foram realizados, obtendo-se altos
títulos de anticorpos IgM e IgG em 178 ocorrências e
quatro casos com apenas IgM. O reservatório de água
da cidade pode ter sido a causa da disseminação da infecção
sistêmica aguda.
Moura et al. (2006) relataram um surto de
toxoplasmose sistêmica aguda que ocorreu na cidade de
Santa Isabel do Ivaí, Paraná, Brasil, entre novembro de
2001 e janeiro de 2002. Foram registradas 426 pessoas
com anticorpos antiT.gondii IgM e IgG positivos pelo
método ELISA. Foi realizado exame oftalmológico em
408 pessoas que apresentaram anticorpos antiT.gondii
IgM e IgG positivos em fevereiro de 2002. Destes, 10%
tiveram lesões oculares e somente 4,4% apresentaram
lesão retiniana necrosante. Os autores propuseram que
a causa do surto foi um reservatório de água que havia
sido contaminado com oocistos de T. gondii eliminados
por gatos que viviam naquela área.
Uma paciente de 42 anos com toxoplasmose adquirida
foi referida por Graff e Russel (2007). O diagnóstico
foi considerado pelo fato de a doença ocular ter
sido precedida de sintomas sistêmicos semelhante à gripe.
Pesquisa de anticorpos antiT.gondii IgG foi positiva
e IgM negativa. Foram avaliadas outras doenças infecciosas
como sífilis, AIDS, tuberculose, leucemia e linfoma,
tendo sido todas negativas.
Hassene et al. (2007) descreveram um caso de
um paciente com toxoplasmose adquirida aguda que teve
polimiosite e retinocoroidite. O diagnóstico foi confirmado
pela sorologia (IFI e técnicas imunoenzimáticas)
fortemente positiva para anticorpos antiT. gondii IgG e
IgM positivos. A biópsia muscular revelou cistos de T.
gondii.
Retinocoroidite toxoplásmica aguda bilateral
após terapia com corticosteróides para tratamento da
síndrome respiratória por antavírus foi referenciada por
Siqueira, Jorge e Figueiredo (2007) em um caso. O paciente
apresentou perda visual bilateral dois meses após
receber terapia com corticosteróides para tratamento
de falência respiratória secundária à síndrome pulmonar
por antavírus. Foram realizadas sorologia IgG e IgM
antiT.gondii, que se mostraram, respectivamente, >0,600
e >300 UI/mL. O paciente foi tratado com medicação
específica para T. gondii, com cicatrização das lesões.
Delair et al. (2008) fizeram um estudo comparando
toxoplasmose presumida congênita e adquirida. Concluíram
que em casos nos quais a origem da infecção
pôde ser determinada, a forma adquirida foi mais frequente
que a congênita. Observaram também que os
casos de toxoplasmose congênita foram mais graves que
os de adquirida.
Palkovacs et al. (2008) relataram um caso de
retinite toxoplásmica em um paciente imunodeprimido.
Ressaltaram a importância de considerar a biópsia por
PAAF (Punção Aspirativa com Agulha Fina) como uma
ferramenta diagnóstica em pacientes selecionados com
infiltrado retiniano.
Garweg et al. (2008) estudaram as características
de recorrência da toxoplasmose ocular em uma população
européia. Concluíram que pacientes jovens apresentam
um maior risco de desenvolver recorrência que
pacientes mais velhos. Mostraram também que na população
estudada dois terços dos pacientes com
toxoplasmose ocular desenvolveram recorrência.
Holland et al. (2008) também estudaram os padrões
de recorrência associados à retinocoroidite por
toxoplasmose. Concluíram que o risco de recorrência é
influenciado pela idade do paciente, assim como duração
da infecção.
Lynch MI, Oréfice F et al. (2008) estudaram a
característica clínica de uveíte posterior presumida de
toxoplasmose em 64 pacientes de Pernambuco. Concluíram
que o principal sintoma encontrado foi redução da
acuidade visual, e que alterações no humor vítreo foram
observadas em todos os casos estudados.
Oréfice et al. (2009) escreveram:
Toxoplasmose ocular adquirida em pacientes brasileiros
Proposta: Avaliar o intervalo entre a infecção documentada
de toxoplasmose sistêmica e a primeira
detecção de toxoplasmose ocular (TO) em uma população
brasileira.
Métodos: Trata-se de uma revisão retrospectiva
de prontuários de 2168 pacientes avaliados no Setor
de Uveíte do Hospital São Geraldo / HC / UFMG,
de abril de 1982 a outubro de 2007. Após uma avaliação
completa, 1552 pacientes foram diagnosticados
como toxoplasmose ocular presumida e destes, 47 foram
considerados de terem adquirido infecção adquirida
por toxoplasmose através da demonstração
de anticorpos antiT.gondii IgG e IgM positivos. Os
seguintes dados foram coletados: apresentação clínica
da toxoplasmose sistêmica e intervalo entre doença
sistêmica e a primeira detecção de toxoplasmose
ocular. Foram avaliados idade e gênero dos
pacientes, assim como apresentação clínica da doença
ocular no momento da primeira detecção da doença.
Resultados: pacientes com toxoplasmose
sistêmica primária documentada apresentaram uma
variedade de achados clínicos ao diagnóstico inicial:
linfadenopatia (n=21), inespecíficos (febre, mialgia,
adinamia, cefaléia, hepatoesplenomegalia; n=6), pneumonia
(n=1), sintomas oculares somente (TO; n=8) e
indeterminados (n=7). Os quatro pacientes remanescentes
tiveram soroconversão durante a gravidez e
foram acompanhados no mesmo serviço pelo primeiro
autor. O intervalo entre os primeiros achados da
infecção sistêmica à detecção da TO variou: 0 (n=8),
1-90 dias (n=20), 91 dias-36 meses (n=9), > 36 meses
(n=10). A média de idade (desvio padrão) dos pacientes
no momento de detecção da TO foi de 34,26 e 15,69
(variação de 6 a 67 anos). A TO apresentou-se como
retinocoroidite em 44 pacientes, papilite em 1 paciente
e uveíte anterior granulomatosa em um paciente.
No paciente remanescente, uma baixa visual associada
com o desenvolvimento de membrana epirretiniana
foi o único achado ocular identificado no tempo da
doença sistêmica.
Conclusão: nesta série de casos de pacientes com
toxoplasmose ocular adquirida, demonstramos que TO
pode se desenvolver até 23 anos após a infecção
sistêmica inicial.
Formas clínicas da toxoplasmose sistêmica pós-natal
A gravidade da doença e a forma clínica dependem
do estado imunológico do hospedeiro, da
agressividade das cepas do parasito e do estágio
evolutivo (Frenkel, 1985). Pinkerton e Henderson (1941)
e Krick e Remington (1989), de acordo com a localização
da lesão tecidual causado pelo T. gondii, classificaram
a doença em três formas clínicas: toxoplasmose aguda,
subaguda ou subclínica e toxoplasmose crônica.
Quando o indivíduo é infectado pela primeira vez,
sem imunidade adquirida anterior pelo parasito, o
protozoário inicia uma fase de multiplicação rápida
(taquizoítos), invasão e destruição celular progressiva,
expandindo, assim, o seu parasitismo por via
hematogênica e linfática. Essa fase da infecção, fase aguda,
ocorre de forma inaparente no hospedeiro humano
imunocompetente, originando a toxoplasmose infecção.
Quando há sintomas, que geralmente são benignos, origina-
se a toxoplasmose doença (Coutinho; Vergara,
2005). Já na fase subaguda, os títulos de anticorpos vão
aumentando no soro, sendo mais frequentes na forma
congênita da doença. No adulto essa fase é assintomática.
A fase crônica ou latente refere-se àquela em que há
predomínio da forma de cistos contendo parasitos viáveis
em seu interior, nos tecidos do hospedeiro (principalmente
no músculo estriado, cardíaco, retina e SNC).
A toxoplasmose sistêmica de origem pós-natal
tem como apresentação mais comum a forma
assintomática ou subclínica, que corresponde aproximadamente
a 70% dos casos. Quanto à forma sintomática,
acontece em 30% dos casos sob a forma ganglionar,
pulmonar, neurológica e ocular (Oréfice; Bahia-Oliveira,
2005). A infecção toxoplásmica aguda durante a gravidez
é assintomática na maioria das mulheres (Montoya;
Liesenfeld, 2004).
O quadro clínico da infecção sintomática em
imunocompetentes seria um quadro autolimitado, benigno
e inespecífico de uma doença infecciosa que raramente
necessita de tratamento. A mais típica manifestação
clínica é a forma ganglionar, caracterizada por
linfadenopatia indolor, de localização cervical ou
occipital, sem supuração, geralmente bilateral, que
regride em algumas semanas, podendo os gânglios permanecer
aumentados por quatro a seis semanas. Pode
ser acompanhado por sintomas gerais como cefaléia, dor
de garganta, febre, mal-estar, suores noturnos, mialgias
e exantema máculo-papular. O T.gondii causa 3-7% das
linfadenopatias clinicamente significantes. O diagnóstico
diferencial se faz com linfomas, mononucleose infecciosa,
doença da arranhadura do gato, sarcoidose, tuberculose,
carcinoma metastático e leucemia. O diagnóstico
da linfadenopatia de origem toxoplásmica é feito facilmente
pela sorologia para toxoplasmose e ou biópsia
de linfonodos (Remington, 1974).
Menos frequentemente, miocardite, pneumonite,
polimiosite, encefalite e hepatite podem comprometer
indivíduos imunocompetentes. A pneumonia é difusa e
pode apresentar-se com tosse seca, expectoração escassa,
cianose e dispnéia. Associam-se sintomas gerais como
febre, cansaço e mal-estar. Petéquias e equimoses acompanham
o quadro pulmonar.
A encefalite caracteriza-se por confusão mental,
febre, cefaléia e convulsões. No líquor encontram-se discreta
pleiocitose mononuclear e aumento de proteínas
(Oréfice; Bahia-Oliveira, 2005).
A miocardite apresenta-se com dispnéia, dor
torácica, febre, náuseas, alterações no eletrocardiograma,
podendo levar à falência cardíaca (Mullan;
Henry; Beverly, 1968).
O Toxoplasma gondii pode causar hepatite
granulomatosa e, consequentemente, cirrose hepática.
Ustun et al. (2004) informaram 68,5% de toxoplasmose
sistêmica aguda (presença de anticorpos antiT.gondii
IgG e IgM) em pacientes com diagnóstico de cirrose
hepática.
A polimiosite inicia-se com fraqueza muscular
proximal e simétrica, elevação de enzimas musculares
e alterações eletromiográficas típicas de inflamação aguda
(Montoya et al., 1997).
Manifestações oculares
Lesão de retinocoroidite típica seria uma
retinocoroidite focal necrosante acompanhada de reação
vítrea, que pode estar associada à lesão cicatrizada satélite,
indicativa de ataque recorrente. A retinocoroidite por
toxoplasmose pode ser de origem congênita ou pós-natal,
como resultado de infecção aguda ou reativação (Montoya;
Remington, 1996; Holland, 1999a). Aproximadamente
dois terços dos pacientes têm reativações que podem ocorrer
nas margens das lesões antigas, no mesmo olho acometido,
porém longe do foco primário e no olho adelfo
(Oréfice; Bahia-Oliveira, 2005). Bosch-Driessen e
Rothova (1999) constataram 57% de recorrências num
período de acompanhamento de 4,6 anos.
A toxoplasmose ocular de origem pós-natal pode
ocorrer ao mesmo tempo que a infecção sistêmica, ou
seja, concomitantemente (intervalo de latência zero),
ou ocorrer após um intervalo de tempo depois da infecção
sistêmica (intervalo de latência variável). Melamed
(1994) descreveu um caso de toxoplasmose ocular de
origem pós-natal que ocorreu 13 anos após a infecção
sistêmica. Stehling e Oréfice (1996) relataram seis casos
de toxoplasmose ocular de origem pós-natal e intervalo
de latência variável, sendo um caso de
toxoplasmose ocular simultaneamente (intervalo de
latência zero) à doença sistêmica.
A doença ocular pós-natal pode, adicionalmente,
apresentar-se como reações inflamatórias como neurite,
vitreíte, iridociclite e vasculite, sem a lesão de
retinocoroidite. Rehder et al. (1988) destacaram um caso
de paciente imunocomprometido que apresentou
iridociclite aguda unilateral de origem toxoplásmica
sem lesão de retinocoroidite. Oréfice e Tonelli (1995)
salientaram um evento de iridociclite granulomatosa em
paciente imunocompetente, sem retinocoroidite. No estudo
de Holland et al. (1999b), 10 pacientes com
toxoplasmose ocular adquirida exibiram inflamação
intraocular na ausência de retinocoroidite. Gonçalves
et al.(1995) referiram um episódio de toxoplasmose ocular
de origem pós-natal, no qual o paciente teve lesão de
retinocoroidite em atividade em um olho e neurite e
vitreíte no outro olho, sem lesão de retinocoroidite, o
que sugere que a inflamação inicial seria causada por
parasitos intraoculares ou por reação de
hipersensibilidade aos antígenos parasitários (Oréfice;
Bahia-Oliveira, 2005).
Complicações como irite granulomatosa, pressão
intraocular elevada, vasculite retiniana, oclusões
vasculares, descolamento de retina seroso ou
regmatogênico podem dificultar o diagnóstico correto
da toxoplasmose ocular (Fardeau et al., 2002).
Diagnóstico
O diagnóstico da infecção pelo T.gondii baseia-se
frequentemente nos resultados sorológicos. Investigase
a detecção de anticorpos contra o protozoário das classes
IgG, IgM, IgA e IgE. No caso dos pacientes
imunocomprometidos, o diagnóstico é realizado, quase
sempre, pela detecção do DNA do parasito por meio de
PCR, isolamento do parasito e histologia.
A fase aguda da toxoplasmose sistêmica caracteriza-
se pela presença de anticorpos antiT.gondii IgM no
soro; aumento dos títulos de anticorpos antiT.gondii IgG
de quatro vezes no soro; ou soroconversão (Ongkosuwito
et al., 1999). A determinação de anticorpos antiT.gondii
IgA é um teste adicional, principalmente em neonatos.
Bosch-Driessen et al. (2002) consideram como fase aguda
da infecção, a existência de anticorpos antiT.gondii
IgM e/ou IgA. Beneson et al. (1982) definem para diagnóstico
de toxoplasmose aguda sistêmica a verificação de
anticorpos antiT.gondii IgM no soro. Na fase crônica,
encontram-se anticorpos IgG em baixos níveis e ausência
de IgM. O diagnóstico laboratorial também pode ser
utilizado no caso da toxoplasmose ocular.
Anticorpos antiT.gondii IgG
Os anticorpos antiT.gondii IgG são identificados
pelo teste do corante Sabin-Feldman, FI, ELISA, teste
de atividade de IgG e teste da reação de hemaglutinação
e diferencial de aglutinação. Eles estão presentes entre
1-2 semanas após a infecção, atingem o pico em um ou
dois meses e persistem detectáveis por toda a vida do
paciente.
Anticorpos antiT.gondii IgM
Os testes de IgM têm sido usados para o diagnóstico
da infecção aguda. Esse anticorpo não atravessa a
placenta e, por isso, quando encontrado no sangue de
neonatos, é de origem fetal. Trata-se de um teste no qual
os resultados têm que ser analisados com cautela, porque
os títulos podem persistir por anos e a confiabilidade
dos testes existentes variam consideravelmente. Os métodos
utilizados para detecção de IgM são IFI, ELISA,
ISAGA. Os anticorpos IgM surgem na segunda semana
após a primo-infecção, atingindo níveis máximos no fim
do primeiro mês, e desaparecem em 6 a doze meses.
Conclui-se portanto que, após o desaparecimento dos
anticorpos IgM, o indivíduo encontra-se na fase crônica
ou latente da infecção pelo toxoplasma, visto que apenas
os anticorpos IgG estarão presentes nessa fase. Já a
persistência de IgM na ausência de IGA indica imunidade
estabilizada.
Anticorpos antiT. gondii IgA
Os anticorpos IGA são detectados no soro de adultos
agudamente infectados e de recém-nascidos congenitamente
infectados pelos métodos ELISA e ISAGA.
São detectados durante a primeira semana de infecção,
atingem níveis máximos em dois meses e os níveis caem
em seguida. Podem persistir por até um ano e, por isso,
são de limitado valor no diagnóstico da infecção aguda
em adultos.
Diagnóstico da toxoplasmose ocular
A produção local de anticorpos tem sido usada
com sucesso no diagnóstico de toxoplasmose ocular. O
coeficiente de Goldman-Witmer demonstra a produção
intraocular de anticorpos anti T.gondii. A detecção do
DNA do parasita por intermédio da técnica PCR no humor
aquoso e corpo vítreo tem demonstrado bons resultados
para o diagnóstico de toxoplasmose ocular.
Intervalo de latência
Em conformidade com a literatura Oréfice et al.
(2009) demonstraram que o intervalo de latência pode
ser muito variável, dificultando o diagnóstico da TOPN.
Mansur, Jones e Lempert (1978) referenciaram
um caso de retinocoroidite 129 dias após a infecção
sistêmica. Em outro estudo, Akstein, Wilson e Teutsch
(1982) avaliaram um surto de toxoplasmose adquirida
que ocorreu em Atlanta, Geórgia. Um paciente desenvolveu
retinocoroidite por toxoplasmose quatro anos
após o surto. Já Hausmann e Richard (1991) salientaram
um caso clínico no qual a paciente teve a doença
ocular três anos após a doença adquirida. Beniz (1993)
descreveu três casos de TOPN dos quais dois apresentaram
doença ocular ao mesmo tempo da doença sistêmica
e um caso, dois meses depois. Melamed (1994) publicou
um caso clínico de uma paciente que teve lesão de
retinocoroidite 13 anos após toxoplasmose sistêmica
adquirida durante a gravidez. Stehling e Oréfice (1996)
relataram seis casos de toxoplasmose ocular de origem
pós-natal e intervalo de latência variável. No Sul do Brasil,
foi realizada uma investigação com onze pacientes
soropositivos para toxoplasmose sem lesão de
retinocoroidite em 1990, que desenvolveram lesão de
retinocoroidite sete anos após. Dois que tiveram
soroconversão, também exibiram lesão de
retinocoroidite em 1997 (Silveira et al. 2001).
O exato momento da infecção adquirida sistêmica
é mais claramente estabelecido quando a doença ocular
ocorre durante a fase aguda da TOPN, visto que 80%
não há como saber se o paciente desenvolverá a doença
ocular ou quando esta acontecerá. Leblane et al. (1985)
afirmam que isso se verifica até 5 anos após a TSPN.
Segundo Bosch-Driessen et al. (2002), a doença ocular
ocorrendo na fase inativa da doença sistêmica é mais
comum e o tempo de latência é muito variável. A TOPN
concomitante foi ressaltada também por Wising (1952),
Beniz (1993), Stehling e Oréfice (1996) , Hogan e Kimura
(1964) e Oréfice et al. (2009).
Caso clínico
Identificação: M.F.R.S., 34 anos, masculino, branco.
QD: Gânglios cervicais difusos com febre por trinta dias
em 12/3/2007. Nessa ocasião foi diagnosticada
toxoplasmose sistêmica. A sorologia no momento da infecção
foi IgG 1:128, IgM 1:1024.
Em março de 2008 (1ª crise), o paciente apresentou
baixa visual em OD. Neste momento, sorologia para
toxoplasmose IgG 297,7UI/ml e IgM 4,34UI/ml, ambos
positivos baseados nos valores de referência. Foi então
iniciado tratamento clássico para toxoplasmose.
Em 9/4/2008 foi instituído Bactrim F por 4 meses (sic).
Em 10/2/2009 (2ª crise):
Em 4/3/2009, momento em que o paciente foi
atendido pela primeira vez pelo primeiro autor, ODV
20/50++, OEV 20/20 (ETDRS). À biomicroscopia, OD
segmento anterior sem reação inflamatória, corpo vítreo
sem células; OE normal. Ao exame fundoscópico
(figuras 1 a 9). Foi iniciado tratamento clássico para
toxoplasmose. Sorologia anticorpo antiT.gondii IgG positivo
e IgM negativo.



Em 18/3/2009 foi realizada a última revisão. ODV
20/25 (ETDRS), OEV 20/20 (ETDRS). Biomicroscopia
dos segmentos anterior e posterior inalterados. Ao exame
fundoscópico.
Resumo: Intervalo de latência (IL)
“IL: 1ª crise: 12 meses (forma sistêmica 03/07, ocular
03/08 OD);”
“IL 2ª crise: 23 meses (forma sistêmica 03/07, ocular
02/09 OD).”
Tratamento
Uso oral
1. Merticorten 20 mg ........... 25 comprimidos ............ 25dias:
* Tomar no café da manhã;
* 2 comprimidos por 7 dias;
* 1 comprimido por 6 dias;
* ½ comprimido por 6 dias;
* ¼ comprimido por 6 dias e parar.
2. Daraprim 25 mg ................. 72 comprimidos......... 35 dias:
* Tomar 3 comprimidos por dia durante 2 dias;
* 2 comprimidos por dia durante 33 dias;
3. Sulfadiazina 500 mg............. 280 comprimidos.... 35 dias:
* Tomar 2 comprimidos de 6 em 6 horas (4 vezes ao dia).
4. Ácido Folínico 15 mg.......... 35 comprimidos........ 35 dias (manipular):
* Tomar 1 comprimido ao dia por 35 dias.
Comentários
Na TOPN (Toxoplasmose Ocular Pós-Natal) é
sempre prudente lembrar de que se trata de uma entidade
com inúmeras características. Portanto, torna-se perigoso,
cientificamente, considerar a TOPN como uma entidade
morfológica e topográfica típica (Exemplo:
retinopatia herpética necrosante??? - figura 10 caso clínico 2).
Na presença da TOPN, deve-se ter o cuidado
ao oferecer a oportunidade de se pensar em um diagnóstico
diferencial. Como a TOPN se apresenta
como uma lesão focal posterior do tipo
granulomatosa, há uma série de outras uveítes que
podem se apresentar com o mesmo tipo de lesão,
como por exemplo: arranhadura do gato, sífilis, tuberculose,
fungo (principalmente a candidíase),
retinopatia herpética e até mesmo a forma focal da
doença de Behçet.
O sucesso do diagnóstico da TOPN, assim como
qualquer outro tipo de uveíte, baseia-se no binômio:
anamnese e biomicroscopia. Entretanto, deve-se acrescentar
a este binômio o rastreamento completo da retina
pela oftalmoscopia binocular indireta.
Durante a anamnese, deve-se aprofundar num
tópico de grande importância que é a epidemiologia.
À biomicroscopia, deve-se estudar, com zelo, o
segmento anterior e posterior, e de um modo mais íntimo,
o corpo vítreo (humor vítreo), pois é neste setor que
se tem a oportunidade de observar: DVP, precipitados
aderidos à face posterior da membrana hialóide posterior,
as bursas, a inversão do canal de Cloquet e, fundamentalmente,
as características seletivas das células que
infiltram o humor vítreo.
Outro setor que oferece elementos para o diagnóstico
da TOPN é a biomicroscopia da lesão e de seus
elementos coadjuvantes, tais como: árvore vascular, cabeça
do nervo óptico e mácula.
O mundo da oftalmologia, principalmente o
estudo do segmento posterior do olho, está invadido
por inúmeras propedêuticas sofisticadas, que, na
vida acadêmica universitária, são elementos importantes
para o estudo mais profundo das uveítes. Os
exemplos mais importantes são: a ecografia B, ERG,
UBM e, atualmente, os elementos componentes da
Heidelberg HRA2 - “Red free”, “Infra red”,
Autofluorescência, Angiografia fluoresceínica,
Indocianina verde e a Tomografia de Coerência Ótica
Espectral.
Como resumo e clausura desta revisão, conclui-
se que é mandatório, no sentido de diagnóstico e
prognóstico, o estudo, já mencionado e enfatizado -
anamnese, biomicroscopia e oftalmologia binocular
indireta.
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