Objetivo: Avaliação corneana pós-operatória com a utilização de crosslinking com dois equipamentos distintos. Métodos: Dois grupos de pacientes: grupo A com 36 olhos e grupo B com 19 olhos foram submetidos ao tratamento por crosslinking de colágeno corneano para estabilização de ceratocone. No grupo A foi utilizado o equipamento Crosslink (IROC - Alemanha) e no grupo B o equipamento X-link (Opto - Brasil). Resultados: Foi avaliado o tempo de reepitelização corneana, acuidade visual, biomicroscopia, topografia, tomografia corneana e microscopia especular após uma semana, 1 mês, 3 meses e 1 ano após os procedimentos cirúrgicos. Não houve diferença significativa na avaliação entre os dois grupos. Conclusão: O resultado pós-operatório nos dois grupos foi semelhante.
Descritores: Ceratocone/cirurgia; Reagentes para ligações cruzadas; Riboflavina; Raios ultravioleta; ColágenoObjective: Postoperative corneal assessment after using two different types of crosslinking equipment. Methods: Two groups of patients, group A with 36 eyes, and group B with 19 eyes, were submitted to the treatment for the stabilization of keractoconus by corneal collagen crosslinking. In group A the equipment used was Crosslink (IROC - Germany), while in group B the equipment was used was Xlink (Opto - Brazil). Results: Corneal reepithelization time, visual acuity, biomicroscopy, topography, corneal tomography and specular microscopy were assessed at 1 week, 1 month, 3 months, and 1 year after the surgical procedures. No significant differences were found in the assessment between the two groups. Conclusion: The postoperative results of both groups were similar.
Keywords: Keratoconus/surgery; Cross-linking reagents; Riboflavin; Ultraviolet rays; Collagen
O ceratocone é uma doença corneana progressiva
que frequentemente aparece na adolescência
e na qual a córnea se afina e muda sua forma.
A córnea normalmente é arredondada ou esférica,
mas com o ceratocone, sofre uma protuberância que
distorce e assume a forma de um cone. Isto afeta a maneira
com que a luz entra no olho e chega à retina, alterando
e distorcendo a visão(1). O tratamento do
ceratocone tem sido a utilização de lentes corretoras e
nos casos avançados, transplante de córnea. Mais recentemente
tem sido utilizado com sucesso o implante de
anel intraestromal(2,3). Alguns autores têm estudado a
redução na trama cruzada do colágeno (crosslinking)
corneano relacionando aos níveis anormais de
dehidronorleucina, provavelmente devido a mudanças
na hidroxilação de resíduos de lysyl de colágeno normal
ou síntese de colágeno anormal(4). O estudo biomecânico
da córnea e sua capacidade de se alterar com modificações
bioquímicas e biofísicas já vêm sendo estudados
desde a década de 70. A comprovação destas modificações
tem sido estruturada nas possíveis alterações do
colágeno. Estas alterações do colágeno fazem com que a
córnea fique mais propensa às degenerações e alterações
que propiciam o abaulamento corneano, causando
assim o ceratocone(4). Atualmente tem sido relatado a
exposição corneana à ação de Riboflavina sob a irradiação
de raios ultravioleta com a finalidade de causar
enrijecimento corneano e se disponibilizando como forma
alternativa de tratamento para ceratocone(5,6).
O objetivo deste trabalho é avaliar o resultado
corneano pós-tratamento por crosslinking utilizando dois
equipamentos distintos.
Após aprovação pelo comitê em ética e pesquisa
do Hospital Almodin Ltda., dois grupos de pacientes para
este estudo prospectivo foram avaliados, sendo grupo A
com 36 olhos e grupo B com 19 olhos. Esses pacientes
foram submetidos ao tratamento por crosslinking de
colágeno corneano para estabilização de ceratocone. No
grupo A foi utilizado o equipamento Crosslink (IROC®
- Alemanha) e no grupo B o equipamento X-link (Opto -
Brasil®). Em ambos os grupos os pacientes tinham entre
22 e 38 anos de idade, sendo que no grupo A 18 pacientes
eram masculinos e 18 femininos e no grupo B 11
eram masculinos e 8 eram femininos. Os casos excluídos
do presente estudo foram pacientes que apresentavam
ceratocone avançado com estrias, leucomas ou espessuras
corneanas menores de 400M.
Os procedimentos foram realizados após ciência
do termo de consentimento livre e esclarecido. Os procedimentos
foram efetuados em ambiente cirúrgico, com
utilização de assepsia e antissepsia com povidine. Foi
realizado abrasão corneana no diâmetro de 9 mm, com
utilização de colírio anestésico (Allergan®-Brasil) e
lâmina de bisturi nº 10, aplicação de Riboflavina 0.1%
em 20% de dextran (IROC®- Alemanha) de 5/5minutos
intercalados com solução salina balanceada (BSSAlcon
®, Brasil) até que a câmera anterior estivesse colorida
de amarelo (30 minutos). A seguir, aplicação de
ultravioleta (UV- Grupo A com Crosslink - Iroc Alemanha
e Grupo B com X-link - Opto Brasil) - com 365nm,
3mw por 30 minutos. Durante a aplicação de UV era
ministrado Riboflavina na mesma concentração, de 5/
5minutos intercalada com BSS. Ou seja, 2,5 minutos após
aplicação da Riboflavina era gotejado o BSS e 2,5 minutos
após, novamente a Riboflavina e assim sucessivamente
por 30 minutos. Após finalizado o procedimento
era colocado uma lente de contato (Focus Monthly - Ciba
Vision-Brasil®). Na liberação era prescrito Gatifloxacino
0.3% de 6/6h por 1 semana, Predinisolona 12/
12h, lubrificante - ácido polivinílico 1.4% de 6/6h por 30
dias e analgésico oral fosfato de codeína 7.5mg 12/12h
por 5 dias. A Prednisolona era mantida até a reepitelização
corneana e após a mesma, era aumentado para
6/6 h por mais 3 semanas, O acompanhamento pós-operatório
foi realizado através da avaliação com lâmpada
de fenda, medida de acuidade visual, microscopia especular,
topografia corneana e refração. A avaliação pósoperatória
foi realizada com 24 h, 8 dias , 30 dias, 6 meses
e 1 ano. A avaliação de 24 h foi somente clínica e as
demais avaliações foram clínica e mensurações.
Analisamos o resultado de 55 olhos operados entre
setembro de 2006 a dezembro de 2007, que tinham
seguimento por até 1 ano. Os pacientes foram examinados
com 24h, 1 semana, 1 mês, 3 meses, 6 meses e 1 ano.
Os exames para avaliação de resultados foram:
biomicroscopia, medida de acuidade visual, refração,
microscopia especular, e topografia corneana.
Na biomicroscopia foi avaliado o tempo de
reepitelização para retirada da lente de contato e a presença
ou não de haze.
A reepitelização ocorreu entre 3 a 45 dias, sendo
que a média foi de 10 dias com o aparelho IROC e 13
dias com o X-link Opto (gráfico 1).
Nos 2 grupos, a acuidade visual destes pacientes mostrou piora no primeiro mês, voltando ao estágio inicial ou com melhora de uma a duas linhas de visão no sexto mês, conforme mostram as tabelas 1 e 2.

A refração média em equivalente esférico também não apresentou melhora significativa. A refração em equivalente esférico piora no primeiro mês e volta ao valor pré-operatório ou com melhora média de 0.5 dioptria, em 6 meses (tabelas 3 e 4).

A média de ceratometria topográfica também não mostra melhora significativa de aplanamento na curvatura máxima. O gráfico demonstra a diminuição de apenas uma dioptria na curvatura corneana em 6 meses e no IROC houve até um aumento de uma e meia dioptria na curvatura máxima no primeiro mês de pós-operatório, sendo que em 6 meses estava igual ou 1 dioptria menor que o valor inicial de pré-operatório (gráficos 2 e 3).

O haze 1+/4+ esteve presente em todos os casos, sendo que desapareceu nos primeiros 30 dias e 13% (7 olhos) apresentaram haze 2+/4+ a 3+/4+, sendo que o mais duradouro desapareceu com o uso de corticóide, voltando à visão inicial. A máquina IROC foi responsável por 7% destes casos e o X-link Opto 6%. Apenas um olho (1.8%) permaneceu com baixa de 3 linhas de visão em comparação com o pré-operatório por mais de 6 meses, decorrente do haze (gráfico 4).
A microscopia especular permanece igual ou com pequena diminuição de células endoteliais nos 2 grupos. Porém nossa máquina de microscopia especular é de contato e pode ter pequenos desvios de contagem celular aos exames. A diminuição é tão insignificante que consideramos contagem endotelial não alterada neste grupo em que respeitamos os 400 micras de espessura corneana, medida pela paquimetria (gráficos 5 e 6).

O crosslink de colágeno corneano com
Riboflavina e ultravioleta é um método de tratar
ectasias progressivas e os parâmetros de tratamento
atualmente aceitos induzem o crosslink de colágeno
em 250 a 350 micras de profundidade no estroma anterior
corneano(7).
Relatos mais recentes têm demonstrado que
esta associação provoca apoptose dos queratócitos,
atingindo até 300 micras de profundidade na córnea(8).
Esta população de queratócitos é recomposta em até
6 meses, e desde que se respeite o limite de 400 micras
na espessura corneana não foi evidenciado danos ao
endotélio, cristalino ou retina(9). Pesquisadores têm demonstrado
a utilização do crosslink em keratectasias
após LASIK(10, 11). O recente alargamento das indicações
na utilização desta nova metodologia tem sido
utilizado no tratamento de úlceras corneanas,
melting e ceratopatia bolhosa(10, 12).
Em 2006, Seiler et al. publicaram um artigo em
que vinte e três olhos de 22 pacientes com ceratocone
avançado (K máximo de 48-72D) foram estudados.
Submeteram estes olhos a uma abrasão corneana central,
gotas de riboflavina fotossensibilizadora foram
aplicadas e depois os olhos foram expostos a UVA
(370nm, 3mW/cm2 em 1 cm de distância), durante 30
minutos. Foram executados exames pós-operatórios a
cada 6 meses, incluindo medida de acuidade visual,
topografia corneana, exame de lâmpada de fenda,
medida da densidade de células endoteliais, e documentação
fotográfica. O tempo de seguimento foi de
3 meses a 4 anos. Os resultados mostraram que em
todos os olhos tratados houve parada da progressão
do ceratocone. Em 16 olhos (70%) houve regressão
com diminuição na K máxima de 2.01 D e do erro
refrativo em 1.14 D. Córnea e cristalino transparentes,
densidade de células endoteliais e pressão
intraocular inalterados. A acuidade visual melhorou
ligeiramente em 15 olhos (65%) e ele concluiu que
novos estudos precisavam ser efetuados, mas o
crosslink de colágeno poderia ser um novo modo de
parar a progressão da ectasia em ceratocone(13, 14). Em
nosso estudo não houve nenhuma alteração significativa
na microscopia especular destes pacientes, nos
mostrando que respeitando as 400? de espessura
corneana, como relatado na literatura, não há lesão a
nível de endotélio. Nossa experiência comprovou o
efeito do crosslink estabilizando a ceratometria
corneana topográfica e o crosslink pôde nos auxiliar,
mostrando estabilidade da refração em um ano. Nenhuma
alteração de cristalino ou retina foram observados
nestes casos e nenhuma intercorrência per ou
pós-operatória, portanto nenhum efeito adverso, o que
nos mostra a segurança da técnica já descrita por vários
autores.
Ceratite por Staphylococcus epidermidis ou
Escherichia coli já foi confirmado como complicação
de crosslink, que melhorou com uso de antibiótico fortificado,
deixando astigmatismo residual significativo
(15, 16). Caso de melting corneano após 5 dias de
crosslink também já foi descrito. O raspado corneano
foi positivo para Acanthamoeba(17). Ceratite epitelial
geográfica e iritis por herpes também já foram descritas
como complicação nesta técnica. Crosslink pode
induzir Ceratite herpética com iritis igual em pacientes
sem história de doença herpética. Diagnóstico precoce
e tratamento formal são essenciais para um resultado
favorável.
Na nossa experiência não tivemos nenhum caso
de infecção ou contaminação no pós-operatório e a avaliação
pos-operatória revelou resultados semelhantes
aos encontrados na literatura(18).
Muito ainda temos que estudar em ceratocone,
biomecânica e flexibilidade corneana. Estudos devem
ser feitos para colocar os parâmetros de indicação e
limites entre as duas técnicas, pois senão estaremos
congelando córneas com refrações que podem ser melhoradas
com o implante de anel. Faz-se necessário
pesquisas para avaliar os limites do crosslink e do implante
do anel. Cremos que isto venha nos ajudar a
induzir que devemos começar a pensar em normatizar
a utilização das duas técnicas. Desta maneira, poderemos
melhorar a acuidade visual naqueles que tenham
má qualidade refrativa e depois fazermos o crosslink
para estabilização destas córneas. O crosslink como
primeira escolha deveria ser utilizado apenas nas
córneas que tenham boa qualidade refrativa. Mas, devemos
sempre abrir um leque para novas tecnologias
que vêm se despontando.
Poderia ser reduzida a necessidade de
ceratoplastia penetrante em ceratocone. Dado a simplicidade
da técnica e custos mínimos, isto também
poderia ser bem apropriado para países em desenvolvimento.
Porém, os resultados a longo prazo se fazem
necessários para avaliar a duração do endurecimento
e excluir efeitos colaterais.
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