Objetivo: Avaliar o efeito da micropuntura com radiofrequência no tratamento dos pacientes portadores de ceratopatia bolhosa sintomática. Métodos: Estudo prospectivo em 10 pacientes com ceratopatia bolhosa sintomática e baixa acuidade visual. Micropunturas com radiofrequência foram realizadas em estroma anterior nas áreas com descompensação epitelial. A evolução dos pacientes foi realizada através de dados clínicos (biomicroscopia, paquimetria, tonometria e estesiometria) e graduação de sintomas (intensidade da dor, sensação de corpo estranho, fotofobia e insônia devido à dor). Resultados: A comparação dos sintomas antes do tratamento e no pós-operatório apresentou redução da sensação de corpo estranho, da intensidade da dor e na insônia em mais de 90% dos pacientes. A medida da sensibilidade corneana pelo estesiômetro de Cocher Bonnet apresentou uma redução da sensibilidade, entre o pré tratamento e o pós de 1 semana, entre 0,5 a 2, em 5 pacientes . A comparação do pré-tratamento com o pós-tardio apresentou aumento na sensibilidade corneana em 07 pacientes variando de 0,5 a 2. A avaliação de espessura corneana através do exame de paquimetria ultrasônica e a medida de pressão intraocular dos pacientes através do tonômetro de aplanação de Goldman não obtiveram diferenças significativas. Conclusão: A micropuntura com radiofrequência mostrou-se um tratamento válido no controle dos sintomas da ceratopatia bolhosa principalmente na redução de sintomas como dor e sensação de corpo estranho.
Descritores: Doenças da córnea/cirurgia; Edema da córnea; Lâmina limitante posterior da córnea/cirurgiaPurpose: Evaluate the effect of micro puncture with radiofrequency as treatment of symptomatic patients with bullous keratopathy. Methods: Prospective study in 10 pacients with syntomatic bullous keratopathy and low vision. Micro puncture with radiofrequency was made in areas of the anterior stromal that had an epithelial descompensation. The evaluation of the patients was realized trough clinical examinations (biomicroscopy, pachymetry, tonometry and esthesiometry) and symptom graduation (pain intensity, foreign body sensation, photophobia and insomnia caused by pain). Results: The comparisons of symptoms before treatment and weeks after procedure showed a decrease, in 90% of patients, of the pain, foreign body sensation and insomnia. The measure of corneal sensibility by the Cocher Bonnet esthesiometer presents a reduction in corneal sensibility, among before and after one week of treatment, between 0,5 to 2, in 5 patients. But several weeks after treatment, the corneal sensibility aggrandized in 7 patients, between 0,5 to 2. The corneal thickness evaluation using ultra sonic pachymeter and Goldman tonometer not find important differences. Conclusion: The micro puncture with radiofrequency is a valid treatment in order to reduce symptoms in bullous keratopathy.
Keywords: Corneal diseases/surgery; Corneal edema; Corneal stroma; Descemet membrane/surgery
Aceratopatia bolhosa é uma doença corneana
causada por descompensação endotelial, com
isso não há deturgescência adequada do
estroma corneano, propiciando a formação de edema
estromal com formação de bolhas epiteliais e
subepiteliais(1-6). Essas, quando rompem expõem terminações
nervosas causando dor, fotofobia e
lacrimejamento(1-4-5). Os pacientes frequentemente apresentam
diminuição da acuidade visual, fotofobia, epífora
e um aumento do risco de ceratite infecciosa(3). São causas
de ceratopatia bolhosa: trauma, glaucoma e anormalidades
congênitas(2-3-6-8).
Sem função endotelial adequada, há a hidratação
do estroma corneano com perda dos ceratócitos e atenuação
mais rompimento da camada de Bowman e membrana
basal. Eventualmente há perda de glicosaminoglicans
no estroma(9). Esses fatores levam a mudanças
na superfície ocular com perda de adesividade epitelial
evoluindo com erosão recorrente e depois persistente.
Enquanto a ceratoplastia penetrante ou a
ceratoplastia lamelar posterior(4) são os tratamentos definitivos
para a ceratopatia bolhosa, existem alternativas
terapêuticas com resultados variáveis que podem
ser utilizadas no controle dos sintomas em pacientes sem
potencial de recuperação visual ou naqueles sintomáticos
que aguardam na fila de transplante de córnea(6).
Vários tratamentos são relatados na literatura.
Colírios antiglaucomatosos e hiperosmóticos como o
NaCl 5% e dimetilpolisiloxane para tentar diminuir o
edema epitelial e estromal, uso de lente de contato terapêutica
(LTC), ceratotomia anular, epiceratoplastia,
ceratectomia fototerapêutica por excimer laser (PTK),
recobrimento conjuntival(1) e com membrana amniótica
(5), criopexia (cauterização) e punção do estroma anterior
(PEA-micropunctura)(1-8-10) com agulha de insulina.
Em 1996, Cormier et al. relataram uma diminuição
na formação de bolhas e alívio da dor em pacientes
com ceratopatia bolhosa submetidos à puntura do
estroma anterior(1-3). Com a micropuntura há destruição
da camada de Bowman, induzindo fibrose e melhor adesão
do epitélio ao estroma subjacente(1,9,11,12).
A termoceratoplastia com radiofrequência
(ceratoplastia condutiva) é um procedimento cirúrgico
aprovado pelo FDA, em 2002, para fins refrativos. A
radiofrequência eleva a temperatura no estroma
corneano, provocando um encolhimento das fibras de
colágeno de forma duradoura, comprovado em pesquisas
microscópicas(6,10,13-15).
O presente estudo tem por objetivo avaliar o efeito
da micropuntura com radiofrequência no alívio da dor e
melhora dos defeitos epiteliais recorrentes em pacientes
portadores de ceratopatia bolhosa sintomática e pobre
acuidade visual.
Após aprovação pelo Comitê de Ética e assinado
Termo de Ciência e Consentimento, foi realizado estudo
prospectivo em 10 pacientes, acompanhados no setor de
Córnea e Patologia Externa da Disciplina de Oftalmologia
da Faculdade de Medicina do ABC,no período de
novembro de 2007 a julho de 2008.
Os critérios de inclusão no estudo foram
ceratopatia bolhosa descompensada (figura 1) e sintomática
e melhor acuidade visual < 20/400.
A avaliação oftalmológica incluiu medida da
acuidade visual, biomicroscopia à lâmpada de fenda,
estesiometria (estesiômetro de Cochet – Bonnet),
paquimetria e medida de pressão intraocular. A
mensuração dos sintomas foi realizada através de questionário
aplicado aos pacientes durante cada retorno,
sendo solicitada a graduação dos sintomas por questionário
subjetivo numa escala de 0 a 3, e presença de insônia
relacionada ao quadro doloroso. Os itens que constaram
na avaliação foram os seguintes: sensação de corpo
estranho, intensidade da dor, fotofobia.
A micropuntura com radiofrequência foi realizada
por dois fellows do serviço de córnea treinados para o
procedimento. O mesmo foi realizado à lâmpada de fenda,
sob anestesia tópica com colírio anestésico, colocação
de blefarostato ligado ao aparelho de
radiofrequência (Wavetronic) Loktal ®, ajustado a potência
em 60 mJ no micropower e 55 mJ no power (figura
2). As perfurações foram realizadas no estroma anterior
com ponteira reta, perpendicular ao plano da córnea,
apenas nas áreas com evidências de bolhas, inclusive
em região central de córnea (figura 3). Após o procedimento
foi colocada lente de contato terapêutica e entregue
medicação tópica, Ofloxacino 4x/dia e Diclofenaco
sódico colírio 3x/dia, para ser instilado pelo paciente
durante 7 e 3 dias, respectivamente.

Os retornos foram agendados para 1 semana após o procedimento, inicialmente, e nas semanas subsequentes até regressão importante dos sintomas.
Foram avaliados 10 olhos ( 5 olhos direito e 5 olhos esquerdo) de 10 pacientes. Sete eram do sexo feminino e 3 do sexo masculino. A idade dos indivíduos variou de 43 a 79 anos, média de 73,4 anos (tabela 1).
A patologia ocular precipitadora do quadro de
ceratopatia bolhosa foi trauma cirúrgico (pós-cirurgia
de catarata) em 9 pacientes (90%) sendo, no momento do
estudo, 7 pseudofácicos e 2 afácicos; e em 1
paciente (10%) secundário à síndrome iridocorneana
endotelial (ICE síndrome). A presença de doença ocular
associada foi diagnosticado em 2 pacientes, ambos
com glaucoma. O intervalo entre o início dos sintomas
e a aplicação da micropuntura com
radiofrequência variou de 11 meses a 61 meses, média
de 24,3 meses (tabela 1).
A aplicação da micropuntura com radiofrequência
foi realizada nas regiões da córnea com evidência de bolha,
inclusive região central, sendo necessárias entre 1 a 2
sessões (com intervalo de pelo menos 1 semana). O número
de consultas variou de 3 a 10 (acompanhamento de
02 a 07 meses – média 3.4 meses)
A melhor acuidade visual desses pacientes na
avaliação pré-procedimento de micropuntura e após, no
acompanhamento, encontra-se descrita na tabela 2.
A avaliação de espessura corneana através do
exame de paquimetria ultrassônica não obteve todas
as leituras em alguns pacientes, tanto na visita inicial,
como no seguimento. Na visita inicial, os valores
paquimétricos variaram de 616 a 848 (média de 744,6)
e na visita final de 609 a 916 (média de 771,5). Nos
pacientes onde foi possível avaliar a diferença entre
o pré e pós, houve aumento da espessura corneana em
2 pacientes (com variação média de 58?m), diminuição
da espessura em 4 pacientes (com variação média
de 67,7 ?m). Em 2 pacientes o aparelho só conseguiu
realizar leitura no pós- tardio, e em 1, apenas no
pré-procedimento (tabela 2).
A medida de pressão intraocular dos pacientes
através do tonômetro de aplanação de Goldman também
apresentou limitações de uso por irregularidade de
superfície; A pressão média no pré e no pós-procedimento
foi de 11,1. A variação de pressão no período estudado
foi no máximo de + 5mmHg (tabela 2).
Nos pacientes onde foi realizada a medida da sensibilidade
corneana pelo estesiômetro de Cochet Bonnet,
5 pacientes apresentaram uma redução da sensibilidade,
entre o pré-tratamento e o pós de 1 semana, entre 0,5
a 2 (média 1) e 2 pacientes apresentaram um aumento
da sensibilidade de 1 no mesmo período. A comparação
do pré-tratamento com o pós-tardio apresentou aumento
na sensibilidade corneana em 07 pacientes variando
de 0,5 a 2 (média 1,1) e redução de 0,5 em 3 pacientes
(tabela 3).
A tabela 4 apresenta os dados sobre a avaliação subjetiva dos pacientes pela graduação dos sintomas quanto a sensação de corpo estranho, intensidade da dor, fotofobia e insônia por dor. A insônia por dor foi referida como grau 3 por 5 pacientes (50%) no pré-tratamento, por 1 paciente no pós 1 semana e graduado em zero por 100% dos pacientes no pós-tardio. (Tabela 4).
A recuperação após o procedimento na maioria nos pacientes ocorreu sem intercorrências, com retirada da lente terapêutica no máximo em 15 dias, mantendo cicatrizes no local da micropuntura (figura 3). No paciente 4, foi observado afinamento corneano progressivo em região paracentral temporal inferior a 2 mm, 2 meses após a aplicação das micropunturas por radiofrequência. Foi realizado tratamento com cola de cianoacrilato e lente de contato terapêutica associado à medicação tópica. O mesmo manteve progressão do afinamento, sendo necessário recobrimento conjuntival da área corneana alterada 15 dias após a tentativa com a cola. Havendo resolução completa do quadro (figura 4).
A descompensação endotelial secundária se deve a
diferentes causas, mais comumente trauma cirúrgico ou não,
inflamação, glaucoma e distrofia de Fuchs cursa com edema
estromal e bolhas epiteliais. Os sintomas relacionados ao
quadro de ceratopatia bolhosa, devido a sua intensidade,
interferem com a qualidade de vida dos pacientes(2,11).
Várias modalidades terapêuticas, descritas anteriormente,
são utilizadas para alívio dos sintomas. Além do
custo com a manutenção do tratamento, há aumento do
risco de neovascularização corneana e infecção, no caso
das lentes de contato para fins terapêuticos, ou aumento de
inflamação, como no uso crônico de medicações tópicas.
Apesar do tratamento de escolha ser a ceratopatia
penetrante, alguns tratamentos de punturas no estroma
anterior da córnea tem se mostrado efetivo no controle dos
sintomas relacionados ao despreendimento epitelial, por
estimular a produção de proteínas na matrix extracelular e
induzir o desenvolvimento de fibroses subepiteliais, evitando
descolamento, como descrito por Cornier et al.(1).
A micropuntura com radiofrequência, além da
ação mecânica de punção no epitélio, estimulando a reação
de fibroblastos, provê uma ação térmica, permitindo
encolhimento das fibras de colágeno(6,14).
Os pacientes acompanhados nesse estudo não
apresentaram padrão de resposta significante quanto aos
dados paquimétricos pós-procedimento, havendo desde
o aumento da espessura quanto a redução. A irregularidade
corneana, dificultando leituras, e a variação individual
de resposta à produção de proteínas e colágeno
podem ocasionar essas variações.
A aferição tonométrica também foi dificultada
pela irregularidade epitelial associada ao quadro de
ceratopatia bolhosa, pois as miras, observadas no
tonômetro de aplanação de Goldman, tornavam-se muito
irregulares para permitir leitura confiável.
A estesiometria mostrou diminuição inicial da
sensibilidade na primeira semana de acompanhamento,
com retorno da sensibilidade no pós-procedimento tardio,
possivelmente por reorganização dos nervos sensitivos
corneanos após a injúria termomecânica. O que não
foi acompanhado por aumento nos sintomas de desconforto,
mostraram em mais de 90% dos pacientes redução
da sensação de corpo estranho e da dor. A fotofobia se
manteve sendo referida como queixa por 40% dos pacientes,
mas em menor intensidade que o pré tratamento.
A intercorrência ocorrida com um dos pacientes durante
o acompanhamento, cursando com afinamento
corneano, já foi relatada na literatura como possível
complicação no procedimento(1), podendo ter sido desencadeada
por maior número de punturas na área tratada, havendo
necessidade de sempre preservar a área livre de puntura,
como pela própria conduta medicamentosa adotada pelo
paciente, apesar das orientações médicas, com permanência
do uso tópico de antiinflamatório por 4 semanas.
Os pacientes acompanhados nesse estudo diminuíram
a necessidade de instilação frequente de colírios
lubrificantes e o uso de lente de contato terapêutica.
A micropuntura com radiofrequência mostrou-se
um tratamento válido na ceratopatia bolhosa para a redução
de sintomas como dor e sensação de corpo estranho.
Tornou-se vantajoso quando comparado com a
micropuntura com agulha, devido à menor necessidade
de reaplicação. A desvantagem está no custo do equipamento
e a necessidade de esterilização a cada uso.
A segurança do procedimento depende não apenas
de uma técnica rigorosa, mas do acompanhamento
próximo dos pacientes nas primeiras semanas.
Novos estudos comparativos são necessários para
afirmar a eficácia do procedimento a longo prazo.
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