Objetivo: Avaliar a influência da acuidade visual nas atividades instrumentais de vida diária em idosos em seguimento ambulatorial. Métodos: Foram entrevistados, por meio de instrumento próprio, 64 idosos em seguimento ambulatorial num hospital universitário de Campinas/SP. Os sujeitos foram divididos em dois grupos, conforme os valores obtidos na medida da AV: o grupo I, composto pelos idosos com visão normal ou próxima do normal; e o grupo II, formado por aqueles com baixa visão. Foram realizadas correlações bivariadas entre as variáveis, a fim de identificar as seguintes relações entre os grupos de acuidade visual e as atividades instrumentais de vida diária. Resultados: Foram observadas diferenças significativas entre os idosos com visão normal ou próxima do normal (grupo I) e aqueles com baixa visão (grupo II), com respeito às variáveis. O grupo II apresentou maior dificuldade do que o grupo I no escore total do instrumento, bem como nas seguintes tarefas: uso do telefone, preparo de refeições, trabalhos manuais, lavar e passar roupa e tomar corretamente os remédios. Conclusão: Neste estudo, idosos com baixa visão de ambos os sexos apresentam maior dificuldade para realizar as AIVDs do que idosos com visão normal ou próxima do normal.
Descritores: Acuidade visual; Atividades cotidianas; Autonomia pessoal; Envelhecimento; IdosoObjective: To evaluate the influence of visual acuity in instrumental activities of daily living in elderly patients in follow-up period. Methods: through own instruments, sixty-four elderly men and women were interviewed in clinical segment at an academic hospital of Campinas/ SP. They were then divided into two groups in accordance to the values that were obtained through the measure of the VA: the first group consisted of elderly people with normal vision or close to the normal, and the second group was formed of those with low vision. Bivariate correlations were made between the variables in order to identify the following relations: between groups of visual and instrumental activities of daily living. Results: Significant differences between the elderly with normal vision or close to the normal (group I) and those with low vision (group II) were found: the group II had greater difficulty than the group I total score of the instrument and the following tasks: telephone use, meal preparation, handicrafts, launder and take the medicine correctly. Conclusion: This study, elderly people with low vision of both sexes have more difficulty to carry out AIVDs than elderly people with normal vision or close to normal.
Keywords: Visual acuity; Activities of daily living; Personal autonomy; Aging; Aged
O declínio biológico é inevitável durante o processo
de envelhecimento, uma vez que todos
os sistemas do corpo sofrem perdas tanto nos
aspectos estruturais como funcionais(1). Com a função
visual não é diferente. Vários estudos populacionais internacionais
relacionados aos problemas oftalmológicos
no idoso se destacam em publicações nessa área: Beaver
Dam Eye Study, Australian Blue Mountain Eye Study,
The Blue Mountains Eye Study, Melbourne Visual
Impairment Project, National Diet and Nutrition Wide
Samples of British e Project SEE. Alguns destes estudos
fornecem dados sobre a prevalência e a severidade da
perda da visão em todo o mundo(2- 7). Estes dados mostram
um aumento significativo na prevalência da deficiência
visual com o aumento da idade, especialmente
naqueles com 75 anos ou mais. Entre os idosos, a deficiência
visual e a cegueira podem ser avaliadas como um
importante problema de saúde pelo aumento de sua
prevalência(8).
Dentre as perdas sensoriais, alterações na visão
têm sido associada à incapacidade física(9) e
corresponde à terceira causa de incapacidade funcional
nos idosos, depois dos problemas relacionados
ao aparelho locomotor e os de origem
cardiovascular(10).
A visão tem um importante papel para a independência
funcional, tendo em vista que mecanismos
sensoriais, principalmente os visuais, resultam
em declínio na habilidade para desempenhar tarefas
rotineiras essenciais para os indivíduos viverem
diariamente(11).
Admite-se que a deficiência visual torna-se mais
prevalente com o aumento da idade e pode interferir no
desempenho tanto nas atividades básicas de vida diárias
(ABVDs) quanto nas Atividades instrumentais de vida
diária (AIVDs)(12-16).
Embora a relação entre função visual e capacidade
funcional relacionada às atividades de vida diária na
velhice seja conhecida como indicador importante da
qualidade de vida nesta população(9), a avaliação desta
relação ainda é pouco realizada. Assim, justifica-se a
realização deste estudo em idosos em seguimento
ambulatorial especializado no Brasil.
Frente ao exposto, o nosso objetivo é avaliar a
influência da visão, por meio da avaliação da acuidade
visual, na capacidade funcional direcionada à realização
das atividades instrumentais de vida diária em idosos
em seguimento ambulatorial.
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo transversal integrante do
Projeto Temático intitulado “Qualidade de vida em idosos
fragilizados: indicadores de saúde e de bem-estar
subjetivo”, o qual tem por objetivo geral identificar e
analisar os fatores de predição e discriminação de fragilidade
e bem-estar subjetivo em idosos residentes no
município de Campinas e região, considerando o impacto
destas variáveis sobre a qualidade de vida destas pessoas.
Este Projeto é coordenado por docentes do Curso
de Pós-Graduação em Gerontologia da Faculdade de
Educação da Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP), Campinas, São Paulo.
Local
O estudo tem como campo de pesquisa o Ambulatório
de Geriatria do Hospital das Clínicas da UNICAMP.
Esta unidade recebe pacientes encaminhados de unidades
básicas de saúde e de outras especialidades médicas
do próprio serviço, em sua grande maioria.
População e Amostra
Os sujeitos do Projeto Temático são idosos com
65 anos ou mais, de ambos os sexos, que vivem na comunidade
e são portadores de doenças somáticas. A amostra
do Projeto Temático contou com 102 sujeitos selecionados
por estratos, de acordo com sua presença no respectivo
ambulatório. Os dados foram coletados no período
de outubro de 2005 a julho de 2006. Os critérios
para a participação deste estudo foram: Inclusão: aceite
em participar da pesquisa com a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido; Exclusão: presença
de déficit cognitivo que dificultasse a compreensão e
resposta do instrumento; diagnóstico de doenças neurológicas
(ex: acidente vascular encefálico, doença de
Parkinson, lesão medular e poliomielite) que pudessem
modificar a funcionalidade do indivíduo devido à
sequela da doença.
Participaram neste estudo 64 idosos com idade
entre 65 e 92 anos [Média=76,33 (+6,86)]. Predominou
o sexo feminino (56,25%) e a cor branca (82,81%); em
menor proporção encontravam-se os pardos (10,94%) e
negros (6,25%). Com respeito ao estado conjugal, 50%
dos idosos eram casados, 42,19% viúvos, 3,13% divorciados
e 4,69% solteiros. Grande parcela dos idosos frequentou
apenas o ensino fundamental (62,50%), 9,38%
o ensino médio, e uma proporção significativa (28,13%)
revelou nenhuma escolaridade. A renda familiar mensal
informada variou entre zero e R$ 1.200, 00 (mediana
= R$ 300,00 reais - Salário mínimo vigente na época
igual a R$ 350,00).
Desenvolvimento da pesquisa
A coleta de dados do Projeto Temático foi efetuada
por uma equipe treinada, da qual participou a autora
do presente estudo. Nesta coleta foi utilizado um instrumento
elaborado para este Projeto, que contém perguntas
fechadas e escalas de avaliação. Este instrumento
está dividido nas seguintes seções: I. Identificação pessoal;
II. Dados sociodemográficos; III. Saúde física; IV.
Antropometria; V. Mobilidade e flexibilidade; VI. Hábitos
de vida; VII. Atividade física; VIII. Saúde bucal; IX.
Aspectos funcionais e de satisfação com a alimentação;
X. Quedas; XI. Estado cognitivo; XII. Fluência verbal;
XIII. Estado depressivo; XIV. Bem-estar subjetivo; XV.
Medida de independência funcional; XVI. Atividades
instrumentais de vida diária; XVII. Atividades expandidas
de vida diária.
As entrevistas foram individuais, realizadas em
sessão única e em ambiente reservado, no dia da primeira
consulta ou do retorno dos idosos no referido serviço
de atendimento ambulatorial.
Para o presente estudo, foram utilizados os seguintes
dados das seções:
a) Seção I: Número de identificação do sujeito;
b) Seção II: Dados sociodemográficos: gênero, idade, cor, estado conjugal, escolaridade e rendimento;
c) Seção III: Medida de acuidade visual (AV) obtida pela Tabela de Snellen;
d) Seção XVI: Atividades Instrumentais de Vida Diária de Lawton (AIVDs)(17).
Todos os dados foram extraídos do banco de dados
do Projeto Temático.
Os participantes deste estudo (n = 64) foram divididos
em dois grupos, conforme os valores obtidos da AV:
Grupo I: AV3 20/60 em ambos os olhos (AO) ou
AV3 20/60 no melhor olho, com correção óptica se fizer
uso;
Grupo II: AV < 20/60 AO, com correção óptica se
fizer uso.
Para facilitar a análise e a discussão consideramos
a AV do grupo I como “normal” ou “próxima do
normal” e a do grupo II como “baixa visão”.
Na escala da AIVDs, foi utilizada a escala de
Lawton e Brody (1969)(17) onde a pontuação varia entre
nove e 27 pontos, o que corresponde a dependência máxima
e independência máxima, respectivamente. Para
cada questão são atribuídos três pontos para a tarefa
realizada de forma “independente”, dois pontos para
“dependência parcial” e um ponto para a “dependência
total”. Nesse trabalho, avaliamos a pontuação obtida em
cada tarefa e o escore total do instrumento.
Análise dos dados
Os dados coletados foram inseridos no programa
estatístico SPSS versão 8.0 System for Windowns e realizadas
uma análises de comparação, para comparar as
variáveis numéricas entre os grupos foram utilizados os
testes de Mann-Whitney (2 grupos).
Aspectos Éticos
O Projeto Temático no qual este estudo está integrado
foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade
de Ciências Médicas da UNICAMP, parecer n° 240/2003.
Os pacientes foram orientados sobre o anonimato e a
liberdade em desistir a qualquer momento da pesquisa
ao assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido,
conforme Resolução 196/96 do Conselho Nacional
de Saúde.
Dentre os 64 idosos estudados, o grupo I foi representado
por 64% (n=41), enquanto o grupo II foi representado
por 36% (n=23) desta amostra.
Com respeito às AIVDs, verificamos correlação
estatisticamente significativa (p = 0,003) entre os grupos
I e II e o escore total do instrumento, bem como nas
seguintes tarefas: uso do telefone (p = 0,013), preparo de
refeições (p = 0,007), trabalhos manuais (p = 0,002), lavar
e passar roupa (p = 0,004) e tomar corretamente os
remédios p = 0,021). Em todas as tarefas, as médias e
medianas do grupo II foram inferiores às do grupo I, o
que representa maior limitação dos idosos com baixa
visão para o desempenho das AIVDs (tabela 1).
Na figura 1, observamos diferença entre os grupos
de AV em relação às AIVDs. Os grupos são diferentes quando
observamos as caixas em relação às suas características:
maior dispersão na caixa do grupo II, observação discrepante
em ambos os grupos (o grupo I mostra observações
menores e no grupo II, verificamos observações menores
e maiores que as demais dentro do grupo). As medianas
e as caudas não se sobrepõem, o que revela diferença
entre os dois grupos. O teste de Mann-Whitney revelou
diferença significante entre os dois grupos (p = 0,003).

Fisiologicamente no envelhecimento, existe uma
relação hierárquica de perdas de habilidades funcionais,
na qual observa-se inicialmente a perda das habilidades
para as AIVDs e posteriormente para as ABVDs(18,19).
Isto ocorre devido à diferença de complexidade entre
tais atividades: as AIVDs são, na maioria das vezes, mais
complexas do que as ABVDs(20). As AIVDs englobam as
atividades funcionais necessárias para um indivíduo viver
de forma independente na comunidade, na qual a
presença de dificuldades implica mais em uma
redistribuição de tarefas entre os membros familiares
(como alguém para ir fazer compras ou auxiliar nas tarefas
domésticas) e menos em cuidado direto(19).
Os idosos que reportam mais dificuldade nas tarefas
de ABVDs e AIVDs têm duas vezes mais chances
de baixa visão(13). Outro estudo, de um grupo de pesquisadores
da Finlândia, observou que pessoas com diminuição
da AV são cinco vezes mais prováveis a apresentar
dificuldade em AIVDs do que uma pessoa com boa
AV(16). No nosso estudo, observamos uma correlação de
perdas das AIVDs em idosos com baixa visão, onde os
idosos do grupo II (baixa visão) apresentaram mais dificuldade
em realizar as AIVDs do que os idosos do grupo
I (visão normal ou próxima do normal). Apesar de idosos
de uma forma geral serem mais propensos a apresentarem
algum comprometimento em AIVDs, apenas
os idosos do grupo de baixa visão apresentaram comprometimento
em algumas tarefas das AIVDs.
Observamos, também no nosso estudo, que os idosos
com baixa visão apresentaram dificuldade em utilizar
o telefone, preparar refeições, trabalhos manuais, lavar
e passar roupa e tomar corretamente os remédios.
A função visual mostra estreita relação com a
mobilidade(16), pois durante a locomoção, a visão é necessária
para monitorar e analisar a localização e o
movimento do corpo, bem como as condições
ambientais para as quais o sistema motor deveria responder
(21). Porém, o declínio visual tem sido associado
não apenas com a diminuição da mobilidade, mas também
com a necessidade de fazer compras em mercados,
preparo de refeições, andar fora de casa, cuidar das
finanças(22), bem como tomar a medicação corretamente
(23). Esta associação nem sempre é linear e facilmente
compreendida, podendo essa relação entre deficiências
sensoriais e dependência nas AIVDs ser indireta e
complexa(24). Idosos que relatam ter dificuldade em três
ou mais atividades de AIVDs são mais sugestionadas a
ter incapacidades graves do que aqueles que relatam
dificuldade em uma ou duas tarefas(13). Portanto, os
idosos do grupo de baixa visão do nosso estudo, segundo
a literatura, está mais propenso à incapacidade grave,
já que em geral, eles apresentam dificuldade em
cinco atividades das AIVDs.
De qualquer forma, idosos de ambos os sexos, que
apresentam dificuldades no desempenho das AIVDs, em
geral necessitam de auxílio de outras pessoas que atuem
como elo de ligação entre eles e seu entorno social, contribuindo
muitas vezes para o afastamento do idoso do convívio
social e, consequentemente, a tendência ao isolamento(19).
Observamos em nosso estudo que idosos com baixa
visão de ambos os sexos apresentam maior dificuldade
para realizar as AIVDs do que idosos com visão normal
ou próxima do normal.
Agradecimentos
Ao curso de Pós-graduação em Gerontologia da
UNICAMP, as professoras Fernanda Aparecida Cintra
e Anita Liberalesso Neri, aos colegas de coleta de dados
do Projeto temático e aos idosos que colaboraram com a
pesquisa.
| 1. |
Ao curso de Pós-graduação em Gerontologia da UNICAMP, as professoras Fernanda Aparecida Cintra e Anita Liberalesso Neri, aos colegas de coleta de dados do Projeto temático e aos idosos que colaboraram com a pesquisa. |
| 2. |
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