
Neurite
Óptica
Bruno Fernandes
INTRODUÇÃO
A Neurite Óptica (NO) é uma inflamação
desmielinizante do nervo óptico, que pode estar associada
ou não a doenças sistêmicas, sendo a Esclerose
Múltipla (EM) a mais comum. Ocasionalmente, a NO pode
sobrevir de um processo infeccioso da órbita ou dos
seios paranasais ou no curso de uma virose.
A incidência fica em torno de 4-5/100.000; é
duas vezes mais comum em mulheres; a raça caucasiana
parece ser mais afetada e o primeiro ataque costuma ocorrer
na faixa etária dos 20 aos 45 anos,apesar de ocorrer
casos atípicos tanto em idosos quanto em crianças.
PATOFISIOLOGIA
Sendo associada ou não a doenças sistêmicas,
a NO é desencadeada por uma reação auto-imune,
resultando em desmielinização do nervo. Embora
pouco se saiba a respeito da NO isolada, quando associada
à EM as lesões do nervo óptico são
similares àquelas encontradas no cérebro, com
infiltrado inflamatório perivascular.
CLÍNICA
Anamnese. A história típica de um caso de
NO é uma baixa de acuidade visual súbita, unilateral,
com dor ocular exacerbada à movimentação
(o acometimento bilateral é mais raro). Outras queixas
são a piora da visão com o calor ou exercício
(fenômeno de Uhthoff) e a sensação de
objetos se movendo em uma linha reta aparentarem uma trajetória
curva (fenômeno de Pulfrich), provavelmente devido à
condução assimétrica entre os nervos
ópticos.
História de episódios prévios no paciente
ou na família, assim como de viroses, deve ser pesquisada.
Exame Oftalmológico. Alterações mais
comuns:
- Defeito pupilar aferente relativo ou pupila de Marcus Gunn.
- Variável baixa de acuidade visual
- Discromatopsia e diminuição da sensibilidade
ao contraste
- Alterações de papila à fundoscopia
em 1/3 dos casos, com edema de papila difuso. A presença
de alterações segmentares, palidez, estreitamento
arteriolar e hemorragias em chama e vela sugerem outros diagnósticos.
Um fundo de olho normal ocorre em 2/3 dos casos, podendo o
disco se tornar pálido como tempo.
EXAMES COMPLEMENTARES
Campo Visual. O defeito altitudinal, arqueado e degrau nasal
são mais comuns que os escotomas central e cecocentral.
Porém, extensões periféricas de escotomas
assim como depressão generalizada de campo podem ser
encontrados.
Exames Laboratoriais. Exames de sangue, radiografia de tórax
e punção lombar são exames importantes
na exclusão dos diagnósticos diferenciais, porém
acrescentam pouco em um caso típico de NO. Análise
do líquido céfalo-raquidiano com presença
de Proteína básica de mielina, bandas oligoclonais
e IgG alta sugerem o diagnóstico de EM.
Exames de Imagem. A Ressonância Magnética é
útil na avaliação do nervo óptico
e para excluir lesões estruturais. Porém, sua
principal utilidade é definir o risco de desenvolvimento
de EM que é maior naqueles pacientes que apresentam
lesões desmielinizantes no SNC.
Neurite Óptica à esquerda.
PEV. O potencial visual evocado se mostrou alterado mesmo
com nervo óptico sem alterações na RNM,
sendo considerado importante em casos suspeitos.
TRATAMENTO
O ONTT ( Optic Neuritis Treatment Trial) foi um estudo multicêntrico
cujo objetivo era definir um protocolo de tratamento para
a neurite óptica. Basicamente, foram comparadas três
abordagens:
- Prednisona VO (1mg/kg/dia) por 14 dias.
- Metilprednisolona IV (250mg 6/6h) por 3 dias, seguido de
prednisona VO (1mg/Kg/dia) por 11 dias.
- Placebo VO por 14 dias.
O tratamento com corticóide IV (Grupo 2) resultou em
uma melhora mais rápida da acuidade visual além
de diminuir a incidência de EM no curto-prazo principalmente
nos casos com lesões suspeitas na RNM. O uso de prednisona
VO (Grupo 1) não se mostrou benéfico e ainda
apresentou uma taxa maior de recorrência de NO. A longo
prazo, não houve diferença entre os três
grupos.
PROGNÓSTICO
Diferente de outras neuropatias, a NO se caracteriza por
uma recuperação progressiva da acuidade visual
depois de algumas semanas do início dos sintomas, mesmo
sem nenhum tratamento. Apesar da maioria dos pacientes recuperarem
acuidade visual de 20/20, deficiências principalmente
na sensibilidade ao contraste podem ser permanentes. A probabilidade
de recorrência em 5 anos é de 28%.
75% das mulheres e 35% dos homens acometidos de NO desenvolvem
EM. Em pacientes sem lesões cerebrais na RNM, as seguintes
características estão associadas a um baixo
risco de desenvolvimento de EM em 5 anos: ausência de
dor, edema de disco, hemorragia peripapilar, exsudatos retinianos
e perda visual leve.
Caso o leitor deseje mais informações, o ONTT
encontra-se disponível na internet no site: www.nei.nih.gov/neitrials/static/study47.htm
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