O direito de ver
Miguel Ângelo Padilha *
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) estima em 180 milhões de pessoas em todo o
mundo apresentando algum tipo de deficiência visual,
dos quais 50 milhões são cegos que não
podem sequer caminhar sem ajuda. Sob o aspecto legal é
considerado cego qualquer indivíduo com acuidade
visual inferior a 20/200 ou cujo campo visual seja menor
que 10 graus, quando o normal é de 140 graus. O Brasil
participa desta estatística com 4 milhões
de deficientes visuais e aproximadamente 1.250.000 cegos.
Preocupadas com estes números alarmantes, a OMS em
conjunto com a IAPB (International Agency for Prevention
of Blindness) criaram o “Plano Visão 2020 :
o direito de ver” com o objetivo de tentar erradicar
as causas de cegueira evitáveis em nível mundial
nos próximos 16 anos.
No Brasil as causas mais comuns de cegueira são,
em ordem de grandeza, defeitos refrativos, catarata, glaucoma,
retinopatia diabética e trauma ocular. À medida
que a população envelhece, e segundo dados
do IBGE hoje já somam 15.780.326 indivíduos
com mais de 60 anos em nosso país, com perspectivas
de dobrar em dez anos, uma outra doença ocular começa
a exigir atenção a partir dos 70 anos. Reconhecida
como Denegeração Macular Relacionada a Idade
(DMRI), só nos EUA esta patologia é responsável
pela perda da visão central de 10 milhões
de indivíduos.
Felizmente, 70 a 80% da cegueira provocada por aquelas
alterações pode ser prevenida ou curada. Os
defeitos refrativos, mais conhecidos como miopia, hipermetropia
e astigmatismo, representam mais de 50% das causas que podem
trazer sérios prejuízos visuais aos seus portadores
se não forem devidamente corrigidos no momento oportuno.
Neste aspecto, é altamente recomendável que
todas as crianças sejam submetidas a um teste de
acuidade visual na fase de escolarização.
Após os 60 anos a catarata surge como a maior causa
de baixa de visão. Graças aos modernos recursos
cirúrgicos hoje disponíveis, as chances de
recuperação visual plena após um cirurgia
bem conduzida se aproximam dos 100%. Nos Estados Unidos,
só em 2003 foram realizadas 2.300.000 de cirurgias,
para as quais foram gastos cerca de 15% do orçamento
do Medicare.
Enquanto nos países desenvolvidos realizam-se 5
mil cirurgias de catarata por ano e por grupo de milhão
de habitantes, o Brasil não chega a um mínimo
aceitável de 3 mil como preconizado pela OMS. Ao
invés de 545 mil cirurgias, estima-se em 360 mil
o número que serão realizadas no país
neste ano.
Já o glaucoma, doença extremamente grave
se não diagnosticada a tempo e tratada de forma adequada,
pode levar à cegueira irreversível pela destruição
das células retinianas e do nervo óptico.
Acomete cerca de 4% da população acima dos
40 anos e é mais comum entre pessoas da raça
negra, portadores de alta miopia, em uso de esteróides.
Se na família houver casos já diagnosticados,
urge redobrar a atenção com seus descendentes
no exame precoce daquela pressão. Um exame periódico
para se checar a pressão dos olhos já é
um passo importante na prevenção desta terrível
doença.
A retinopatia diabética está diretamente
ligada ao tempo de evolução da doença,
pressão arterial elevada, fumo, gravidez, hormonioterapia,
os quais podem provocar aumento da permeabilidade vascular
e uma neovascularização responsável
por danos a retina. Acomete grande parcela da população
em fase intensamente laborativa nos países industrializados
e sua prevenção depende do controle dos pacientes
diabéticos. Estima-se que até 2025 o mundo
terá 300 milhões de diabéticos. Na
fase grave das alterações oculares pode-se
lançar mão de fotocoagulação
ou vitrectomia, com prognóstico sombrio em muitos
casos. É fundamental não deixar a doença
chegar a estágios tão avançados.
Os traumas oculares, em casa, na escola, no trabalho ou
no trânsito exigem permanentes campanhas de esclarecimento
público, concitando pais e professores a redobrarem
os cuidados com as crianças no momento que manipulam
com objetos perfurantes, como tesouras, facas e garfos.
Em crianças menores de 5 anos, o cigarro é
apontado como o grande vilão, responsável
por 32% das queimaduras oculares. Dentro das empresas é
importante alertar e impor o uso de óculos protetores
em tempo integral quando o tipo de atividade assim o exigir.
Nas ruas e estradas, o uso permanente de cintos de segurança
deve ser encarado não como uma obrigação
em função de lei, mas com a percepção
que eles efetivamente protegem motoristas e passageiros
de sofrerem lesões graves não apenas nos olhos
mas também na face e crânio.
Com o número crescente de longevos em nossa sociedade,
a profilaxia das doenças degenerativas da retina
impõe cuidados com a alimentação, na
forma de ingestão maior de peixes, ovos, alimentos
ricos em caroteno, selênio, zinco, vitaminas A, C
e E, destacando-se principalmente espinafre, brócolis,
frutas, e maior proteção dos olhos contra
a deletéria ação dos raios ultravioletas.
Administração de medicamentos com substâncias
antioxidantes também parecem contribuir significantemente
para controlar, e às vezes, fazer regredir a doença.
Em certos tipos de DMRI a oftalmologia conta com vários
recursos como a moderna fototerapia dinâmica para
o seu tratamento, empregando-se um laser frio especial sobre
as células retinianas doentes marcadas previamente
com a administração endovenosa de um corante
à base de porfirina.
Por estas e muitas outras razões, a OMS e a IAPB
criaram alianças estratégicas com a Associação
Pan-americana de Saúde, com organizações
não governamentais (ONGs), clubes de serviços
e associações científicas oftalmológicas
de vários países com a finalidade de cumprir
o objetivo “Visão 2020 : o direito de ver”,
o qual tem como compromisso diminuir os índices de
cegueira no mundo até o ano 2020 através de
diferentes ações e iniciativas locais e mundiais.
Neste sentido o Brasil já se adiantou, e através
de diversas campanhas em caráter nacional vem desenvolvendo
vários projetos sociais como o Mutirão da
Catarata, Pequenos Olhares, voltado para exames de escolares
e doação de óculos e que até
agosto último já havia examinado cerca de
10 mil alunos em todo o país, Fotocoagulação
em Retinopatia Diabética, com equipamentos distribuídos
em 25 serviços públicos de referência
nacional, além de campanhas públicas de esclarecimento
e detecção mais precoce do glaucoma.
Embora nos últimos anos o Brasil tenha avançado
de forma espetacular na prevenção e tratamento
da saúde visual, as necessidades da população
ainda estão sendo atendidas em ritmo muito aquém
do que é adequado e possível.
Muito ainda tem de ser feito ! A oftalmologia brasileira
tem sido extremamente solidária com os menos favorecidos
e diuturnamente, sem alardes, tem trabalhado para minorar
a aflição daqueles que estão privados
de um dos sentidos mais nobres do ser humano: o dom da visão!
(*) O Dr. MIGUEL ÂNGELO PADILHA foi Presidente
da Sociedade Brasileira de Oftalmologia e é Membro
da Comissão de Prevenção da Cegueira
do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
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