
Por que tenho que saber estatística?
Prof. Dr. Augusto Paranhos Jr. Mestre
e Doutor (UNIFESP/Escola Paulista de Medicina) Chefe do Setor
de Glaucoma (UNIFESP/Escola Paulista de Medicina)
A
estatística foi algo que o médico em geral sempre
sonhou em não estudar, afinal não foi por não
gostar de matemática que eu estou aqui?
É aquela parte do trabalho que a maioria nunca lê
e, numa apresentação, quando se é esmiuçada,
os cérebros rapidamente desconectam e pensam em tudo
menos no que está sendo falado. Por que então
temos que saber esta matéria nebulosa que não
apetece a maioria?
Existem três aspectos da vida do médico em que
o estudo da estatística se coloca como compulsório
numa escala crescente de importância: o médico
que estuda, o médico que ensina e o médico que
pesquisa.
Atualmente, os estudos médicos estão
cada vez mais on-line. Os livros, que demoram anos para serem
publicados, carregam atrasos importantes desde o primeiro
dia nas prateleiras e acabam por servir mais de guia, de
alicerce para o estudo principal. Agora, este estudo se faz
diretamente nas revistas científicas. E é aí
que a estatística entra. O volume de informações
é enorme e o filtro de qualidade deixa muito a desejar.
A enorme maioria das revistas médicas
com peer review deixa para os revisores (médicos pesquisadores
naquela área, na maioria das vezes) o julgamento quanto
à qualidade e propriedade de aplicação
de um determinado método estatístico. Poucas
são as revistas que têm um profissional estatístico
a disposição para julgamento da qualidade de
uma análise estatística. Aí mora o problema.
O julgamento acaba sendo muitas vezes pela paixão da
resposta à pergunta interessante (conclusão)
em detrimento de como se chegou a ela (métodos).
Assim, comparações múltiplas
sem ajuste, regressões múltiplas com variáveis
independentes que correlacionam, taxas de sucesso relatadas
apenas em proporções, análises descritivas
dando endosso para abstrações analíticas,
ausência de diferença quando não se tem,
na verdade, poder para achá-la são erros freqüentes
até nas melhores revistas. Revistas clínicas
costumam pecar por um menor rigor de avaliação
da estatística em comparação com as de
pesquisa básica. Muito porque nas revistas clínicas
ainda há um grande número de revisores não
pesquisadores, que justamente por não sê-los,
julgam mal, passando o ônus da avaliação
do que é bom ou ruim para você que está
estudando.
E assim temos o leitor, médico, estudante
eterno (pelo menos é o que se espera dele...) e um
volume desmedido de informações que não
param de chegar. Ele deve ter o mínimo de juízo
crítico, filtro quanto à qualidade da informação
que está sendo passada. Porque há muita coisa
ruim e o porquê delas existirem seria motivo para outro
editorial. Então, ao ler um artigo, antes de assimilar
uma informação como verdade, pergunte-se:
A metodologia está adequada para responder
a pergunta proposta? A estatística está apropriada
para tanto? A amostra é grande o suficiente? Aí,
só depois, deixe-se envolver pela natural paixão
que leva nossos olhos ao resultado.
Lembre-se que nem um ensaio clínico multicêntrico,
absurdamente bem conduzido, necessariamente fecha questão
e temos neste caso as meta-análises (avaliação
conjunta de vários ensaios sobre um mesmo tema para
chegar a uma única conclusão maior) para nos
ajudar. Imagine então os que são mal
conduzidos. A medicina baseada em evidências funciona
com um conjunto de ferramentas para proteção
contra a pesquisa ruim e tem na estatística uma de
suas principais armas.
Um fator de correção, de cobrança,
para uma melhor qualidade de revisões, seriam as cartas
ao editor. Infelizmente o nosso país ainda claudica
neste método de defesa, de qualidade. Com as cartas
critica-se a
revista, o revisor e o autor. Há que se estimular as
cartas em nossas revistas e que elas não sejam vistas
como grandes ofensas ao autor, isso é subdesenvolvimento
intelectual.
A estatística é ainda mais necessária
a quem ensina. O professor universitário não
pode se dar ao luxo de não sabê-la no seu nível
mais básico pelo menos. O aluno, ainda que isto seja
um erro, toma as afirmativas do professor (principalmente
o carismático) como verdade absoluta. É obrigação
dele passar as informações com o devido filtro.
Assim ele estará incutindo na cabeça do aluno
a importância de bem analisar um artigo. Fará
um bom estudante no futuro, preparará um pesquisador
se for este o caminho.
Termino então falando deste em que
a noção já mais avançada da estatística
se faz necessária, o pesquisador. É inadmissível
que o condutor de uma pesquisa não se valha dos trabalhos
de um estatístico quando da elaboração
de um trabalho em que a complexidade do mesmo exige. E isso
deve ser feito antes da pesquisa começar. Infelizmente
é bastante comum o pseudopesquisador procurar este
profissional com uma coleção ininteligível
de números pedindo a salvação, que não
vem. Saber o básico e recorrer a
ajuda sempre que necessário é obrigação
do pesquisador.
Mas como tudo está on-line, também
estão os programas de estatística. Tê-los
não os farão estatísticos. Permitirá
sim que se tenha gráficos bonitos, tabelas rebuscadas
e um que pode ter sido torturado
até confessar significância, com testes impróprios
em análises erradas.
Perda de tempo para quem escreveu e para quem leu.
Assim, estude estatística, procure
profissionais da área e ajude a melhorar o estudo da
medicina e a execução de nossas pesquisas.
Literatura eletrônica pertinente (onde
procurar ajuda):
Estatística básica para
o clínico: Canadian Medical Association Journal:
Basic statistics for clinicians www.cma.ca/cmaj/series/stats.html
Coleção do BMJ: Como ler um
artigo
www.bmj.com/collections/read.shtml
Revisões sistemáticas
e meta-análises:
Fundação Cochrane no Brasil: http://www.centrocochranedobrasil.org
Fundação Cochrane: www.cochrane.org
Evidências: www.evidencias.com
Bandolier: www.jr2.ox.ac.uk/Bandolier
Ensaio clínico randomizado:
Randomized Controled Trial A user's guide (Alejandro R Jadad)
http://www.bmjpg.com/rct/contents.html
OBS :
O presente texto foi publicado como Editorial da Revista Brasileira
de Oftalmologia No4 - VOL.62 - ABRIL de 2003 .
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