
Diretriz da Catarata AMB-CFM
Catarata: Diagnóstico e Tratamento
30 março de 2003
Participantes: Centurion V, Figueiredo CG, Carvalho D, Trindade
F, Rezende F, Almeida HG, Akaishi L, Ventura M,
Faria MR, Padilha MA, Louzada N, Fontes PC,
Fadel P, Cvintal T, Nosé W
Autoria: Conselho Brasileiro de Oftalmologia
DESCRIÇÃO DO MÉTODO DE COLETA
DE EVIDÊNCIA:
A Sociedade Brasileira de Catarata e Implantes Intraoculares,
subespecialidade
da oftalmologia, filiada ao Conselho Brasileiro de Oftalmologia
e à Sociedade
Brasileira de Oftalmologia, nomeou uma comissão ad
hoc para estabelecer
uma diretriz sobre a catarata e condutas terapêuticas.
A pesquisa foi realizada na base dos dados da Cochrane Review
in: the Cochrane
Library Oxford utilizando os seguintes termos: Catarata/etiologia/epidemiologia/
fatores de risco/classificação/diagnóstico/indicação
terapêutica/pré-pósoperatório/
complicações/resultados/antibióticos/socioeconômicos/tecnologia.
Pesquisa realizada nas bases de dados: Biblioteca Cochrane:
The Cochrane
Database of Systematic Reviews, The Database of Abstracts
of Reviews of
Effectiveness. The Cochrane Central Register of Controlled
Trials; Medline:
Medlars Online. Literatura Internacional, Lilacs: Literatura
Latino-Americana
e do Caribe em Ciências da Saúde. Os artigos
citados foram selecionados
dentre revisões sistemáticas completas e atualizadas
da literatura nacional
e internacional disponíveis.
GRAU DE RECOMENDAÇÃO E FORÇA
DE EVIDÊNCIA:
A: Estudos experimentais e observacionais de melhor consistência.
B: Estudos experimentais e observacionais de menor consistência.
C: Relatos de casos (estudos não controlados).
D: Opinião desprovida de avaliação crítica,
baseada em consensos,
estudos fisiológicos ou modelos animais.
OBJETIVOS:
Normatizar recomendações para uso dos profissionais
da área médica.
CONFLITO DE INTERESSE:
Nenhum conflito de interesse declarado.
DEFINIÇÃO/CLASSIFICAÇÃO
Catarata é a denominação dada a qualquer
opacidade do cristalino,
que não necessariamente afete a visão. É
a maior causa de
cegueira tratável nos países em desenvolvimento.
Segundo a Organização
Mundial de Saúde, há 45 milhões de cegos
no mundo,
dos quais 40% são devidos à catarata1(A).
Podemos classificar as cataratas em: congênitas, de
aparecimento
precoce ou tardio, e adquiridas, onde incluímos todas
as
demais formas de catarata inclusive a relacionada à
idade. De acordo
com a sua localização, poderá ser nuclear,
cortical ou subcapsular,
e de acordo com o grau de opacidade, poderá receber
a denominação
de incipiente, madura ou hipermadura.
EPIDEMIOLOGIA/ETIOLOGIA/FATORES DE RISCO
As causas não estão bem definidas, porém
estudos
epidemiológicos revelam associação de
catarata à idade. Assim,
estima-se que 10% da população norte-americana
têm catarata e
que esta prevalência aumenta em 50% no grupo etário
de 65 a 74
anos, enquanto em pessoas acima de 75 anos a incidência
aumenta
para 75%2(D).
Inúmeros fatores de risco podem provocar ou acelerar
o aparecimento
de catarata, incluindo medicamentos (esteróides), substâncias
tóxicas (nicotina), doenças metabólicas
(diabetes mellitus,
galactosemia, hipocalcemia, hipertiroidismo, doenças
renais), trauma,
radiações (UV, Raio X, e outras), doença
ocular (alta miopia,
uveíte, pseudoexfoliação), cirurgia intra-ocular
prévia (fístula
antiglaucomatosa, vitrectomia posterior), infecção
durante a gravidez
(toxoplasmose, rubéola), fatores nutricionais (desnutrição)
3(D).
Portanto, como prevenção, a educação
pública tem papel relevante
a fim de prevenir os fatores de risco, sabedores de que a
população da terceira idade tem tendência
a aumentar não somente
no Brasil4(D) como também em todo o mundo5(D).
DIAGNÓSTICO
Devemos associar a queixa subjetiva do paciente aos sinais
objetivos do exame oftalmológico. As queixas mais freqüentes
são:
diminuição da acuidade visual, sensação
de visão
“nublada ou enevoada”, sensibilidade maior
à luz, alteração da visão de cores,
mudança freqüente
da refração6(A).
Os sinais objetivos encontrados no exame
oftalmológico de rotina são: perda da acuidade
visual, mensurada geralmente pela Tabela de
Snellen e alteração da transparência do
cristalino
na biomicroscopia do segmento anterior em
midríase, em exame realizado com lâmpada de
fenda7(D).
Ao indicar a terapêutica cirúrgica, serão
necessários
exames oftalmológicos complementares,
essenciais no planejamento cirúrgico e pesquisa
de doenças associadas, bem como a técnica a
ser
empregada e o seu momento adequado.
Biomicroscopia do segmento anterior:
exame fundamental para se detectar a presença,
localização, extensão das opacidades
cristalinianas,
bem como detectar possíveis fragilidades
de zônula e/ou ectopia ou luxação do cristalino,
sinais de inflamação intra-ocular e avaliar
a higidez da córnea, íris e ângulo da
câmara
anterior. Sempre que as condições oculares assim
o permitirem, tal exame deverá ser realizado
sob ampla midríase medicamentosa8(D).
Tonometria de aplanação: exame ideal
para se medir a pressão intra-ocular. Se ela estiver
alterada, outros exames deverão ser solicitados,
a fim de se esclarecer se existe ou não um
glaucoma associado.
Biometria: cujo objetivo principal é a medida
do comprimento axial do globo ocular, imprescindível
para o cálculo do valor dióptrico da
lente intra-ocular. Poderá ser realizada pelo
método do ultra-som, de contato ou de imersão,
e pela interferometria. Métodos especiais serão
utilizados em olhos com diâmetros extremos e
pós-cirurgia refrativa corneana9-11(D).
Mapeamento de retina ou oftalmoscopia
indireta: indicada para avaliar o complexo
vitreoretiniano, a fim de detectar possíveis doenças
e/ou fatores de risco que possam comprometer
o resultado terapêutico. É realizado sempre
que os meios transparentes do globo ocular
o permitam12,13(D).
Topografia corneana: método mais
acurado do que a tradicional ceratometria, método
ainda válido para a maioria das situações,
para determinar o valor da curvatura da córnea
(K), importante para o cálculo do valor dióptrico
da lente intra-ocular9(D). A topografia é recomendável
em situações especiais, como nos casos
de pacientes já previamente submetidos a
cirurgias refrativas corneanas, bem como será
útil no controle de astigmatismos no pós-operatório,
principalmente em casos de cirurgias
combinadas de catarata e transplante de córnea
e cirurgias extracapsulares14,15(D).
Ecografia B ou ultra-sonografia do globo
ocular: obrigatória quando há opacificação
total dos meios transparentes do globo ocular
com o objetivo de avaliar o segmento posterior,
ou seja, cavidade vítrea, retina, coróide e
nervo
óptico. Sua indicação é justificável
nos olhos
com comprimento axial extremo olhos pequenos
ou altos hipermétropes e olhos grandes ou
altos míopes16(C).
Microscopia especular: avalia o endotélio
corneano, de cuja capacidade funcional depende
a transparência da córnea. Ideal e fundamental
no pré-operatório, pois define a técnica
e a
estratégia cirúrgica a serem empregadas.
bém é utilizado no acompanhamento pós-operatório
de cirurgia tríplice (catarata, implante
e transplante)17,18(D).
Teste de sensibilidade ao contraste: útil
em olho com catarata incipiente, porém, sintomática.
Situações em que a visão medida
na Tabela de Snellen se mostra normal ou
próxima do normal, porém o paciente apresenta
queixa de alteração no desempenho visual
quando varia a iluminação no dia-a-dia
ou em determinadas profissões19,20,12(D).
PAM: para avaliar o potencial de visão
macular, mesmo através de meios opacos12(
D)21,22(B)23,24(C).
Exames justificáveis em situações especiais,
com doenças associadas ou sistêmicas
com repercussão ocular:
• Retinografia fluorescente ou com
indocianina verde: retinopatias, maculopatias12,25-
27(D);
• Biomicroscopia do segmento posterior
(pólo posterior/periferia): retinopatias28(
D);
• Campimetria: glaucoma, retinopatias,
neuropatias29-31(D);
• Paquimetria: ceratopatias32(D);
• UBM: doenças do segmento anterior33(
D)34,35(C)36(A);
• Potencial visual evocado/eletroretinografia:
neuropatias, retinopatias37(D);
• Tomografia de coerência óptica: doença
de
mácula e nervo óptico38(D).
O cirurgião responsável, com base em sua
experiência e visando a segurança do paciente,
deve ter toda liberdade para indicar a melhor
propedêutica especializada para cada caso.
A catarata é doença que acomete preferencialmente
pacientes da terceira idade que
freqüentemente apresentam afecções clínicas
associadas
que devem ser avaliadas antes e durante
a cirurgia pelo anestesiologista.
INDICAÇÃO TERAPÊUTICA
O único tratamento curativo da catarata é
o cirúrgico e consiste em substituir o cristalino
opaco por prótese denominada de lente intraocular
(LIO)1(A).
Toda vez que a qualidade de vida do portador
de catarata esteja comprometida, ou seja,
que existam limitações nas atividades que realiza
habitualmente, a cirurgia está indicada39(D).
A evolução da catarata geralmente é bilateral
com certa assimetria, daí a importância da
realização da cirurgia do segundo olho para
recuperação
integral do sistema visual39(D).
TERAPÊUTICA
A cirurgia da catarata, denominada de
facectomia, pode ser realizada por diversas técnicas
ou métodos, sendo as mais conhecidas a
facoemulsificação e a extração
extracapsular
programada1(A). Para ambas é obrigatória a utilização
do microscópio cirúrgico.
Do ponto de vista socioeconômico, a
facoemulsificação é a técnica
predominante
nos países desenvolvidos, sendo a extração
extracapsular planejada a mais utilizada nas
regiões denominadas “em desenvolvimento”
40(B).
Do ponto de vista técnico, dá-se preferência
à facoemulsificação, pois é mais
segura, com menor número de complicações;
a recuperação
visual é quase imediata, além de poder ser
indicada precocemente40(B).
A facoemulsificação é uma técnica
que utiliza
tecnologia avançada, tanto nos equipamentos
como nos insumos, e apresenta constante
evolução. A evolução da técnica
e da tecnologia
utilizada na cirurgia de catarata, verificadas nas
últimas duas décadas, trouxe como conseqüência
imediata o encurtamento do tempo da cirurgia,
rápida recuperação física e visual
e a redução
do tempo de internação hospitalar. Anteriormente
tal internação exigia entre cinco a
sete dias de hospitalização. Hoje, em regime
de
internação de curta duração ou
de curta permanência,
e equivocadamente traduzida do inglês
Day Clinic para Ambulatorial.
Ao mesmo tempo, a cirurgia tornou-se
muito mais complexa e demorada no seu aprendizado,
em especial na prevenção e tratamento
das possíveis complicações advindas desta
complexidade
tecnológica41,42(D).
Esta Comissão recomenda não se utilizar o
termo alta imediata, pois contraria a Resolução
do Conselho Federal de Medicina nº 1.409/94,
sobre as condições de alta do paciente submetido
a cirurgias de curta duração, e que preconiza
que o paciente só deverá ter alta quando
verificado43(D):
• Orientação no tempo e no espaço;
• Estabilidade dos sinais vitais;
• Ausência de náuseas e vômitos;
• Capacidade de ingerir líquidos;
• Capacidade de locomoção como antes,
se a
cirurgia o permitir;
• Sangramento ausente ou mínimo;
• Ausência de dor importante;
• Sem retenção urinária.
No adulto, a anestesia é local, com injeção
periorbitária ou tópica com gotas e sedação.
O
ato anestésico deve ser realizado e acompanhado
por anestesiologista, assim como a
monitorização cardíaca, devido ao reflexo
óculo
cardíaco, à idade dos pacientes e a doenças
clínicas
associadas44(A)45,46(D).
Entre as características da moderna técnica
da cirurgia da catarata, seja pela
facoemulsificação, seja pela extracapsular programada,
alguns insumos utilizados durante
o ato operatório se revestem da maior importância.
Assim, o uso de viscoelástico, substância
que protege as estruturas intra-oculares
de segmento anterior do trauma cirúrgico
e indicada nas complicações per-operatórias,
é obrigatório. Devido às especificações
terapêuticas
podem ser classificados em
viscoelásticos coesivos e dispersivos e a sua
indicação é de responsabilidade do
cirurgião47(D). Não menos importante é
a utilização
de lanças ou lâminas cirúrgicas
descartáveis ou de uso único, da maior importância
nas microincisões realizadas durante
o ato operatório48, 49(D).
Após extração da catarata, é
implantada a
prótese, a lente intra-ocular (LIO) ou cristalino
artificial. A escolha da LIO é de responsabilidade
do cirurgião devido à existência de
diversos modelos, materiais e especificações
existentes no momento da publicação destas
diretrizes. Compete única e exclusivamente a
ele a seleção da LIO mais recomendável
em
cada caso. A LIO dentro do saco capsular,
não tendo contato com tecido metabolicamente
ativo, constitui importante barreira que
separa o segmento anterior do posterior do
olho, proporcionando maior proteção, e age
na prevenção de complicações1(A)50(D).
CUIDADOS PÓS -OPERATÓRIOS
Na rotina, preconiza-se a utilização de antibióticos
e/ou outros medicamentos tópicos
no pré e no pós-operatório imediato (sete
a
dez dias), associados ou não a antiinflamatórios
hormonais ou não hormonais51(D).
As visitas pós-operatórias serão determinadas
pelo cirurgião, com intervalos que ele
julgar mais convenientes.
A refração final será realizada entre
uma
e quatro semanas após facoemulsificação
e entre
4 a 12 semanas na extracapsular.
A realização da cirurgia do segundo olho,
quando com catarata, permite recuperação
funcional mais efetiva da visão39(D), e deverá
ser considerada de comum acordo entre cirurgião
e paciente.
COMPLICAÇÕES
Podemos dividí-las em per e pós cirúrgicas.
Entre as complicações per-cirúrgicas,
a mais
freqüente é a ruptura da cápsula posterior41(D),
mas muitas outras têm que ser lembradas. Graças
aos recursos hoje disponíveis, a cirurgia de
catarata tornou-se um procedimento cirúrgico
bastante seguro, mas fantasiosamente tal conceito
foi adulterado para “um procedimento
muito simples, banal”. Citando algumas outras
complicações, temos a subluxação
do cristalino
artificial, luxação completa da catarata
no vítreo, hipertensão vítrea, perfuração
traumática
da retina, queimadura da incisão, hemorragia
coroideana, lesão irreversível do
endotélio corneano, lesão iriana com ou sem
hemorragia.
Entre as complicações pós-operatórias
estão:
edema macular cistóide, descolamento de
retina, endoftalmite, elevação da pressão
intraocular,
lesão do endotélio corneano, opacificação
da cápsula posterior. Esta opacificação
capsular é considerada a mais freqüente das
complicações pós-operatórias e
a sua incidência
depende da idade do paciente, da técnica
cirúrgica empregada e do modelo e da
tecnologia empregada na fabricação das lentes
intra-oculares. A sua terapêutica, a
capsulotomia através do NdYag Laser, não é
isenta de riscos (descolamentos de retina,
edema macular cistóide, glaucoma, uveíte
recidivada) e representa preocupação socioeconômica
devido à sua freqüência e ao seu custo17,52-
56(D)57(B)58(C).
RESULTADOS
A cirurgia é considerada curativa devido à
eliminação da catarata, e refrativa devido à
possibilidade
de correção do vício de refração
preexistente. Durante e após a cirurgia da catarata,
há possibilidade de correção de
ametropias através da implantação das
LIOs,
combinada com outras técnicas cirúrgicas e de
melhora da acuidade visual, não somente para
longe como também para perto, por meio da
pseudoacomodação com lentes multifocais, lentes
acomodativas, técnicas de monovisão, ou
através de discreta miopia ou pequeno
astigmatismo miópico simples contrário à
regra6(A)59(D)60(B).
Os resultados sofrem influência de fatores
como idade e co-morbidade, sendo que em relação
à técnica, a facoemulsificação
é considerada
com melhores resultados visuais que a técnica
da extracapsular1(A).
Os resultados visuais da catarata congênita,
apesar de terem melhorado com a evolução
da tecnologia, são de mais difícil avaliação
devido
às características próprias desta doença,
em
especial do tratamento da ambliopia61(A), que
pode ser evitada ou atenuada com estimulação
visual precoce.
CONSIDERAÇÃO FINAL
A evolução na cirurgia da catarata, com resultados
funcionais a cada dia mais previsíveis e índices
de complicações cada vez menores, não
diminui a responsabilidade do cirurgião especializado
em cirurgia da catarata, devido à visão ser
o principal sentido do ser humano, e a perda da visão
de um olho representar 40% de perda de capacidade laborativa
e da visão de ambos os olhos perda de 100% desta capacidade62(D).
A moderna cirurgia da catarata com a implantação
de lentes intra-oculares, através de minúsculas
incisões, representa um dos mais importantes avanços
da medicina, por permitir tratar com grande eficiência
a principal causa de cegueira, recuperando de forma segura
e rápida o mais importante sentido do ser humano, a
visão.
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